Deputado Federal e ex-militar faz provocação a familiares de mortos e desaparecidos no Araguaia

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) acaba de fazer uma provocação inaceitável a familiares de mortos e desaparecidos da guerrilha do Araguaia durante o regime militar,no mais sangrento período da ditadura,que corresponde ao período do governo do general Emílio Garrastazu Médici.
Na porta de seu gabinete,Bolsonaro colocou um cartaz onde aparece a figura de um cão segurando um osso (como se fosse um osso humano),com a seguinte inscrição:"Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia,quem gosta de osso écachorro".
A postura causou a repulsa e o repúdio imediato do Grupo Tortura Nunca Mais/SP,cujo Diretor de Comunicação,Delson Plácido,enviou ofício ao presidente da Câmara,Michel Temer (PMDB-SP),exigindo providências contra o deputado do PP.
Veja a íntegra do Ofício do Grupo Tortura Nunca Mais:
Ao Deputado Federal Michel Temer
Presidente da Cãmara dos Deputados
Brasília –DF
Excelentíssimo Senhor;
Pela presente,o Grupo Tortura Nunca Mais/SP,vem manifestar sua profunda irritação e indignação em virtude das provocações e falta de ética do deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro,Jair Bolsonaro.
O deputado federal,Jair Bolsonaro tem na porta do seu gabinete um cartaz,no qual aparece um cachorro com um osso na boca e com a seguinte frase:"Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia,quem gosta de osso écachorro".
As provocações de Jair Bolsonaro representam uma falta de respeito aos familiares dos mortos e desaparecidos e a todos os que lutaram e tombaram durante o regime nazimilitarista em nosso país.
O Grupo Tortura Nunca Mais/SP lamenta profundamente que as provocações desse aprendiz de nazista ocorram,exatamente,quando surgem várias denúncias sobre a "Operação Condor"e quando aumentam as pressões dos movimentos sociais e órgãos internacionais para a abertura dos arquivos secretos das forças armadas e punição dos torturadores,por uma verdadeira Anistia,sem a qual jamais teremos um Estado Democrático de Direito em nosso país.
O Grupo Tortura Nunca Mais/SP considera que o deputado federal,Jair Bolsonaro deveria ter seu mandato cassado por falta de decoro parlamentar.
Atenciosamente,
Delson Plácido
Diretor Comunicação Grupo Tortura Mais/SP
Quem éJair Bolsonaro
Deputado Federal em quinto mandato,Bolsonaro jápassou pelo PDC,PPR,PPB,PTB,PFL e agora estáno PP (mesmo partido de Paulo Maluf),que atualmente compõe a base do governo Lula no Congresso.
Éformado pela AMAN (Academia Militar de Agulhas Negras),membro da Brigada Pára-Quedista,atualmente afastado para o exercício parlamentar. No Congresso jáparticipou de várias comissões,algumas polêmicas,entre as quais:Comissão Mista Especial Projeto Calha Norte,Política de Ocupação Racional da Região Amazônica;CPI Mista Esterilização das Mulheres no Brasil;Meio Ambiente e Minorias;Defesa Nacional;Seguridade Social e Família;Reforma da Previdência;Anistia dos Militares;Acumulação de Cargos para Militares;Carreiras Policiais;Guerrilha do Araguaia;Processo de Desestatização da Companhia Vale do Rio Doce;Reserva Indígena Raposa Serra do Sol,e Demarcação de Terras Indígenas;Usina Nuclear Angra II,entre outras. Óbvio dizer que sua participação em algumas destas comissões,sob o manto de ‘defesa nacional’,por exemplo,teve posição contrária àdemarcação de terras indígenas ou por sua redução,pela privatização da Vale,pela permanência da Anistia aos militares que torturaram e mataram durante o regime militar.
Em seu currículo disponível no Site da Câmara dos Deputados,Bolsonaro faz constar os seguintes dados:“Destacado para servir na fronteira,Nioaque,MS,1979-1981. Preso disciplinarmente em 1986,por 15 dias,após ter declarado àimprensa a baixa remuneração dos militares. Acusado em 1987,pelo Ministro do Exército,Leônidas Pires Gonçalves,de indignidade para o oficialato,sendo absolvido,em 1988,pelo STM (Superior Tribunal Militar)”.
Bolsonaro tem sido uma espécie de ‘bastião da exterma direita’no Congresso Nacional e,infelizmente compõe a base do governo Lula no Congresso.
Márcio Fortes,ex-colaborador da ditadura
O PP,partido de Bolsonaro participa da Base do Governo através do Ministério das Cidades,dirigido por Márcio Fortes,outro ex-colaborador da ditadura militar. Entre outros cargos,antes de ser Ministro das Cidades do amplo arco de alianças do presidente Lula,Márcio Fortes foi Assessor Chefe do Gabinete do Ministro da Indústria e do Comércio (1970/74);Assessor e Subchefe da Assessoria Especial do Presidente da República (1966/73);Membro do Grupo de Estudos sobre Direito Internacional Público e Política Internacional na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (1966/67);Redator e Revisor da equipe de elaboração das Mensagens Presidenciais ao Congresso Nacional (1967/69). Este último cargo pode ter proporcionado a Márcio Fortes participar da elaboração e redação de algumas das pérolas da ditadura,como os Atos Institucionais (inclusive o AI-5).
O fato éeste:o governo Lula tem hoje como ‘aliados’políticos,gente da estatura moral de um Jair Bolsonaro e de um Márcio Fortes. Então,muitas notícias como esta (do ataque de Bolsonaro aos mortos e desaparecidos) devem continuar a acontecer,sem muita margem de resposta do governo àaltura do que a sociedade exige,ou seja,o deputado deveria,no mínimo ser submetido ao Conselho de Ética da Câmara,o que dificilmente ocorrerápor conta do episódio do cartaz com o cão. Bem,não seria grande coisa o deputado ser investigado por um conselho de ‘ética’que játeve em seus quadros alguns tipos como o deputado ‘que se lixa’com a opinião pública.
(Márcio Amêndola de Oliveira,do Contraponto,com informações dos Sites do Congresso Nacional,do Ministério das Cidades e do Grupo Tortura Nunca Mais)

‘Bancários vivem fase da geração tarja preta’

                                                                   Uma das instituições financeiras mais beneficiadas pelo período de bonança bancária (além da era das privatizações),o Santander éexatamente parte da linha de frente dos bancos que adotam política incisiva em sua rotina de trabalho,a fim de potencializar os rendimentos do banco. “Para garantir o lucro dos bancos,leva-se adiante o adoecimento de muita gente. Vivemos a fase da ‘geração tarja preta’,a dos bancários que para conseguirem trabalhar e cumprir tarefas precisam se entupir de remédios,antidepressivos e medicação controlada”,conta Edson Carneiro,do Sindicato dos Bancários.

Escrito por Gabriel Brito

22-Mai-2009 –Correio da Cidadania

Diz-se que ganham atéquando o mundo estáem crise,cobram das mais altas taxas mundiais por seus serviços,recebem aportes governamentais quando vão àruína e desviam seu destino do crédito para os títulos seguros da própria dívida de quem lhe emprestou dinheiro. Também pagam salários progressivamente decrescentes em relação àinflação e pressionam cada vez mais seus funcionários por resultados e abdicação de direitos historicamente conquistados. Se soam familiar,épor se tratarem,todos,de fatos e práticas que podem ser atribuídos às instituições bancárias brasileiras. Para quem tem acompanhado o noticiário dos últimos meses,parecem condizentes com a realidade.

Uma das instituições financeiras mais beneficiadas pelo período de bonança bancária,o Santander éum dos que estão na linha de frente dos bancos que adotam essa política de modo incisivo em sua rotina de trabalho.

"O sistema financeiro do Santander talvez seja dos mais agressivos,pois estabelece metas para os diversos produtos que eles tentam vender goela abaixo dos clientes,forçando os funcionários a conseguir alcançá-las. E na maioria das vezes essa pressão se dáatravés do assédio moral",conta Edson Carneiro,do Sindicato dos Bancários.

Um dos assuntos mais polêmicos a envolver o grupo espanhol refere-se ao pagamento aos aposentados do antigo Banespa,comprado pelo Santander em 2000,na onda de privatizações que a gestão tucana patrocinou a partir da década de 90. Em matéria de 13 de fevereiro de 2008,reportagem de AndréSiqueira,a revista Carta Capital informou que uma comissão de parlamentares formada para analisar o caso estimou,em caráter preliminar,que a conta em favor dos aposentados jáestaria em 15 bilhões de reais.

O banco,obviamente,segue se negando a tratar do assunto. Em sua página na internet,éimpossível encontrar qualquer referência a um tema de notória repercussão na sociedade. Ao mesmo tempo,podem ser encontradas fartas informações sobre projetos de sustentabilidade,meio ambiente,cultura,entre outros,patrocinados pelo grupo.

Em declaração publicada no caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo no dia 26 de abril de 2008,uma cliente denunciou um claro exemplo de como a instituição busca em todas as esferas livrar-se de custos e repassá-los a quem diz prestar serviço. O que no caso estava em jogo era a cobrança de tarifa em chamadas feitas por clientes por determinada demanda,propagandeando-se,além disso,na ligação,outros serviços que o banco oferece a seus correntistas. "Ou seja,ao pagar a ligação tarifada,financiávamos o merchandising do banco".

Éesta mesma lógica de faturar sempre no pico da curva,repassando todos os ônus para os clientes e funcionários,que impera na hora de determinar por conta própria como investir os recursos concedidos pelo governo,em forma de isenções tarifárias ou empréstimos –seja nos momentos de auge ou nos momentos de crise. Na hora de administrar a bolada dada pelo governo àépoca das privatizações,um fundo que chegou àcasa de 7 bilhões de reais,épossível imaginar como o banco buscou tirar proveito do montante recebido para compensar seus gastos na compra do Banespa.

"O governo na época passou 4 bilhões de reais ‘carimbados’para o banco cumprir suas obrigações com os aposentados. Os títulos tinham esse carimbo exatamente para remunerar os aposentados e arcar com seus custos",informa Carneiro. "No entanto,essa destinação exclusiva mudou,o banco pôde usá-la como quis,investindo os valores no mercado financeiro,ganhando,por sinal,muito dinheiro com isso. Para os funcionários e aposentados sobrou o congelamento salarial,que reduziu seus ganhos em mais de 50%,de acordo com a inflação",completa.

O aposentado João Bosco Galvão de Castro éum caso concreto de ex-funcionário que padece das atuais políticas do banco para com seus trabalhadores e játravou diversas batalhas judiciais contra a instituição. "Como aposentado,66 anos,sinto que,como tantos outros na mesma situação,umas 14 mil pessoas,estamos sendo massacrados e humilhados pelo banco,ao mesmo tempo em que presenciamos os recursos provenientes do erário (INSS) sendo usados indevidamente",protesta.

Seu caso éapenas mais um em uma pilha de processos que envolvem o Santander,que entre suas operações recentes de maior destaque registra a compra do Banco Real,tendo em março deste ano realizado outro negócio de envergadura:a aquisição,por 678 milhões de reais,da seguradora Real Tokio Marine.

De quebra,como informou o Valor Econômico do dia 29 de abril,fechou o primeiro trimestre deste ano com lucros de R$ 594 milhões e aumento de 7,1% do patrimônio líquido no mesmo período. Nada mal quando estamos surfando ainda nas primeiras ondas do que se definiu de forma amplamente consensual como a maior crise do capitalismo desde 1929.

"O INSS dáe o banco tira"

No que diz respeito àojeriza do banco em arcar com custos de sua responsabilidade patronal,podemos ver como os anos foram acostumando o Santander a tais práticas,pouco ou nada combatidas por nossos representantes e denunciada por meios de comunicação.

"Desde a privatização do Banespa jámorreram cerca de 2.000 aposentados,sem conseguirem ver restituídos os seus direitos",relata João Bosco. "Tanto o banco como o INSS contribuíam cada um com 50% sobre o total da aposentadoria. Passados oito anos,o INSS participa com 74% e o banco,via fundo de pensão,com 26%",revela.

O processo de deterioração das condições dos aposentados também se relaciona com as más negociações celebradas pelas entidades sindicais que os representavam. "Como o banco fez diversos acordos lesivos aos aposentados (2001,2004),ocorreu que,em alguns anos,tivemos ‘reajuste zero’,em face da discriminação para com os aposentados,deixando-os fora de reajustes oferecidos aos funcionários da ativa,disfarçados em abonos ou outras premiações".

"Essa questão deve ser respondida pelas correntes majoritárias do sindicato. Em minha opinião,foi um erro o congelamento salarial. E isso trouxe prejuízo a ativos e aposentados. Aos da ativa,ainda estava condicionado a uma garantia de emprego que durou pouco. De toda forma,foi muito prejudicial aos aposentados",concorda Edson Carneiro,ligado àIntersindical e deixando claro suas discordâncias com a CUT,condutora de tais negociações e também vista como culpada pela penúria dos ex-funcionários do Banespa.

"Este quadro se tornou ainda mais cruel,visto que os reajustes concedidos pelo INSS eram apropriados pelo banco,quando comentávamos que ‘o INSS dáe o banco tira’",denuncia João Bosco,que explica como se daria tal apropriação. "Recebemos de duas fontes diferentes e declaramos o Imposto de Renda de ambas as fontes. Durante os períodos de ‘reajuste zero para os aposentados’,quando havia reajuste da parte do INSS,o banco ao mesmo tempo reduzia,de forma proporcional,sua complementação,de modo que ficávamos com nossos valores sempre congelados".

"Sem dúvida,essa éuma apropriação indébita clara. São recursos dos aposentados que deveriam ser destinados para bancar seus salários e direitos",endossa Carneiro.

A própria conclusão dos técnicos do Senado,publicada por Carta Capital,atesta claramente qual o teor das negociações para os aposentados. Diz que "a negociação dos títulos emitidos para securitizar o passivo atuarial dos aposentados e pensionistas do plano pré-75 (como ficou conhecida a geração de João Bosco na querela) fere a autorização senatorial". Fora isso,foi dada a instrução de que os trabalhadores lesados procurassem defender seus direitos na justiça. Isto é,o próprio Estado,através de representantes incumbidos de analisar o caso,reconhece que os aposentados são vitimados pela sanha financeira do Santander.

Como o próprio João Bosco afirma,"o dinheiro que o banco deixou de repassar aos trabalhadores,cuja destinação era exclusivamente essa,por conta dos rendimentos alcançados por outros investimentos feitos pelo banco,jáserviu para cobrir a compra do Banespa".

Presente sombrio

Se a realidade de quem entregou anos ou décadas de sua vida para o bom funcionamento do banco éde infindável espera e angústia por benefícios que podem ser vitais na hora de uma necessidade de saúde –vale lembrar que no período cerca de 2000 aposentados jáfaleceram sem terem visto um desfecho positivo -,a situação de quem trabalha atualmente no banco não parece das mais saudáveis.

"No Santander agora estamos vendo muitas demissões. Depois da compra do Real elas têm ocorrido aos montes. Ontem mesmo (terça,19/05) foram suspensas atividades em mais de 60 agências no estado de São Paulo",avisa Carneiro. "Nesse momento,o centro da nossa luta élutar contra as demissões,com algumas manifestações sendo realizadas,denunciando abusos de instituições como o próprio Santander",destaca,desmistificando a promessa de que os postos de trabalho seriam conservados após a bilionária transação.

Uma contundente demonstração das condições de trabalho adversas no setor foi a greve que os bancários realizaram em outubro do ano passado,com duração de aproximadamente 15 dias,terminando com tímidos reajustes àcategoria –no Chile,trabalhadores do Santander Banefe,holding da instituição,chegaram inclusive a fazer greve de fome.

"No último período,tivemos muitas paralisações,e além de lutar pelos empregos,também travamos batalha na PLR (Participação nos Lucros e Rendimentos),em que o banco tenta enganar os funcionários,e numa questão fundamental:a pressão por metas de vendas",alerta o sindicalista. "Nossa avaliação éque a categoria estásendo submetida a um processo de adoecimento profundo,o que leva toda uma geração de trabalhadores a comprometer sua saúde,por conta desse assédio moral,pressão,sobrecarga,demissões,enfim,éuma situação grave",completa.

"Para garantir o lucro dos bancos,leva-se adiante o adoecimento de muita gente. Vivemos a fase da ‘geração tarja preta’,a dos bancários que para conseguirem trabalhar e cumprir tarefas precisam se entupir de remédios,antidepressivos e medicação controlada",desabafa. "A saúde de muita gente estáabalada e acreditamos se tratar de caso de saúde pública,pois éum problema muito coletivo,e o Santander tem um dos mais altos níveis de adoecimento. Éum banco que não prima pelo respeito àdignidade dos funcionários",finaliza.

Gabriel Brito éjornalista.

III Convenção de Solidariedade a Cuba

III Convenção de Solidariedade a Cuba
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Na casa do patrão

APRESENTADORA QUE ALAVANCA A AUDIÊNCIA DO PROGRAMA DE SILVIO SANTOS AO FUNDIR ESPONTANEIDADE E HUMILHAÇÃO,A MENINA MAISA REVELA A DUPLA FACE DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

CYRUS AFSHAR
DA REDAÇÃO –Caderno Mais –Folha de S. Paulo –24/05/09

Ela acaba de completar sete anos,mas játem mais de três anos de experiência profissional,e seu trabalho jáéconhecido em todo o país.
Maisa comanda um programa no SBT e,aos domingos,éprotagonista de um quadro em que conversa longamente com ninguém menos que seu patrão,Silvio Santos,e ajuda a alavancar a audiência do restante da programação. Mas,nas duas últimas semanas,o quadro dominical foi palco de cenas ao vivo de gritos e choros da criança.
"A questão ésaber quando acaba o lúdico e o adorável e começa a perversão e a monstruosidade dessa situação-mídia",provoca Ivana Bentes,professora do programa de pós-graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na entrevista concedida àFolha,por e-mail,Bentes explica alguns dos mecanismos de funcionamento da apropriação da imagem de novas celebridades,o comportamento do público e a importância da internet para o processo de espetacularização.

PERGUNTA –O que estáacontecendo com a menina Maisa éum caso de exploração midiática?
IVANA BENTES –
"Exploração midiática"équase uma redundância. A expropriação/apropriação ébase de funcionamento do próprio regime midiático em que nós,telespectadores,somos a matéria-prima em diferentes sentidos.
Na busca de criar fatos midiáticos incessantemente,capturar nossa atenção e comprar nosso tempo,a televisão convoca,explora e mobiliza nossos afetos,nossa atenção.
O espectador éo primeiro "explorado"pela publicidade,pela ficção,pelas "atrações". Somos nós que emprestamos nosso tempo,nossa subjetividade e nosso imaginário para criar valor na TV.
Ou seja,o que a mídia vende/explora não éa publicidade -somos nós mesmos.
E,para isso,precisa minimamente que essa audiência se conecte,se deixe afetar por um personagem,uma situação,que crie hábitos e possa voltar -criando um sentimento de pertencimento a uma "comunidade imaginada". Aíse chega a Maisa,a menina-prodígio do SBT,a "menina-monstro"como definiu ironicamente,mas com precisão,o "Pânico na TV".
A garota érealmente adorável e "monstruosa"ao mesmo tempo. Tem a dupla face da mídia atual,que incorpora e utiliza o mais "espontâneo",o íntimo,a gafe,o erro,o choro e todo tipo de assujeitamento e humilhação como matéria altamente valorizada. Isso sem abandonar a celebração do visível,da formalidade e da encenação.
Não éàtoa que os vídeos de Maisa estão no YouTube anunciem "pérolas de Maisa",gafes de Maisa,micos de Maisa,choro de Maisa,tropeços etc. A questão ésaber onde acaba o lúdico e o adorável e começa a perversão e a monstruosidade dessa situação-mídia.
Não se trata de julgar nem de moralizar "este"caso,num momento em que o valor de "exposição"da vida,da intimidade,da subjetividade na TV,na internet ou em qualquer outra mídia éum valor em si.
A visibilidade éum bem altamente valorizado e disputado -"naturalizado". Épreciso justamente desnaturalizar esse novo regime midiático que não para de testar os limites do tolerável e do aceitável.

PERGUNTA –Nesse contexto (de exploração midiática),qual éo papel da mãe? E o do apresentador?
BENTES –
Não édifícil entender o seu nível de satisfação/excitação do pai e da mãe da menina (satisfação simbólica e real,com sua galinha dos ovos de ouro mirim). E o apresentador/dono da emissora cumpre o mesmo papel de outros homens de negócio de TVs abertas que vendem "produtos"tão ou mais discutíveis e monstruosos:homofobia,intolerância religiosa,espetáculos de descarrego e expulsão de demônios dos corpos,preconceito racial,condenações morais,denuncismo,criminalização da pobreza e dos pobres e toda uma pauta conservadora e moralista.
A questão que importa ésaber qual o papel da "comunidade"de telespectadores e da sociedade diante desse quadro.

PERGUNTA –Como tem sido e como deveria ser o tratamento dado pela mídia neste caso?
BENTES –
A televisão não tem programa de debate e de discussão do seu próprio conteúdo. A TV não dádireito de resposta,o que éescandaloso. Confunde audiência com legitimidade social e qualidade. Daíque não vi na mídia (com raras exceções,como a coluna de Bia Abramo do dia 17/5,na Folha) nenhuma discussão sobre os limites e constrangimentos de colocar uma criança de seis anos no horário nobre de domingo falando de "pum",gases,bunda,meleca.
E,ao mesmo tempo,tendo que responder sobre assuntos extremamente complexos,como outras celebridades televisivas,profissões,afetos,casamento,Deus e infidelidade. E sempre constrangida por Silvio Santos atéo limite do embaraço,do choro ou da mudez com reprimendas,ameaças,provocações.

PERGUNTA –Pessoas antes quase desconhecidas são alçadas rapidamente àcondição de celebridades por conta dos milhões de acessos,casos da escocesa Susan Boyle,de Cris Nicolotti e de Maisa. Qual a importância hoje da internet no processo de criação das celebridades?
BENTES –
"Celebridade"talvez seja um nome antigo (coisa do século passado,de mídias "modernas",como cinema e TV) para descrever os processos da visibilidade contemporânea. A internet e o YouTube criaram um novo público,pós-televisivo,um consumidor-produtor superativo,que clica tudo e que vêtudo -sem dúvida éuma nova força.
O YouTube égenial porque éo esgoto público das imagens,onde épossível experimentar o que háde mais potente e monstruoso (no sentido positivo e negativo dos excessos e das exceções) na multidão de usuários,sem mediação. Sem o "patrão",como Silvio Santos se apresenta para a menina Maisa no SBT,num dos quadros.

PERGUNTA –Quando procuramos vídeos da artista mirim no YouTube,o site remete a entradas como "Maisa chorando","Maisa chora"e "Maisa peidando",a partir das buscas mais realizadas. Os fãs sentem prazer em ver celebridades em situações constrangedoras?
BENTES –
Trata-se de um fenômeno bem mais amplo e disseminado de midiatizacão,comercialização da intimidade e da "visibilidade". A partir do momento em que ruiu a barreira entre intimidade e publicidade,em que se esgarçou o limite entre público e privado,o que poderia ser constrangedor? Maisa chorando,Daniela Ciccarelli transando na praia,a cabeça de Saddam Hussein rolando,os exames de saúde da ministra da Casa Civil,Dilma Rousseff,em jornais assistidos por milhares de pessoas? Exibir a intimidade vem deixando de ser um constrangimento para se tornar um "valor". A intimidade na era da sua visibilidade máxima e as tecnologias de exibição de si são uma característica geral e uma exigência do capitalismo contemporâneo.

PERGUNTA –O caso da construção da ex-atriz Shirley Temple éparadigmático para entender a situação atual deste caso? BENTES –Bem,o visual da apresentadora mirim do SBT parece inspirado nos vestidinhos de babados e cabelos cacheados da mais famosa menina-prodígio de Hollywood.
Mas épreciso lembrar que Shirley Temple éum produto da máquina fordista hollywoodiana,dos anos 1930 e 1940,de um capitalismo disciplinar e disciplinador em que a ideia de "infância"e "criança"ainda estava bem delimitada e definida.
Hoje,quando foram desenvolvidos produtos midiáticos para crianças de zero a um ano -como os Teletubbies,que aceleram os processos cognitivos enquanto ensinam a criança a desejar e a consumir-,a comparação com Shirley Temple talvez não seja apropriada.
Pois o capitalismo contemporâneo tem necessidade de incluir e modular todos,desde o ano zero e mesmo antes do nascimento.
O aprendizado se faz pela mídia -com o fim dos tempos "mortos"da infância,de ócio e lazer,em nome de uma hiperprodutividade infantil- e por adestramento precoce,cujo modelo visível Maisa encarna.
O assustador éque a subjetividade-Maisa éo modelo de criança e de infância em via de se universalizar.
São muitos os indícios:o assédio e crescimento da publicidade infantil,sem controle no Brasil;a invasão de bichinhos e desenhos animados em anúncios de cerveja,carros,criando uma sensibilidade precoce e formando consumidores futuros,a erotização do universo infantil dissociada,mais tarde,do abuso sexual por adultos e da violência contra crianças.
Enfim,a garota-prodígio do SBT aponta para antigas questões e novos limites,em torno da intimidade,da visibilidade,da infância.
Nesse sentido éuma menina-modelo,exemplar de uma série de transformações.

Indígenas resistem na Amazônia peruana

Em greve há 40 dias,comunidades indígenas exigem anulação de decretos que permitem ação das transnacionais em suas terras O papel do Brasil ao lado das transnacionais 22/05/2009 Dafne Melo da Redação Há pouco mais de um mês,comunidades indígenas de quatro departamentos (Estados) peruanos decidiram mandar um sinal claro de insatisfação ao governo de Alan García. Cortes de estradas e pontes,protestos e greves de cerca de 1,2 mil comunidades tiraram da normalidade os Estados de Cusco,Loreto,Amazonas e Ucayal,regiões de floresta amazônica. A resposta do governo federal foi a de sempre:repressão. Declarou estado de exceção por 60 dias,no dia 9 de maio,em diversas localidades dessas províncias e prenderam pelo menos seis lideranças nos últimos dez dias. A insatisfação das entidades indígenas peruanas tem como origem uma série de medidas provisórias (chamadas de “decretos legislativos”) anunciada pelo presidente do Peru no ano passado que tem como objetivo preparar o terreno para a implementação do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos e,de quebra,também abre caminho para as obras do Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana (IIRSA). Os movimentos sociais argumentam que as medidas aprofundam ainda mais o modelo neoliberal,promovendo a privatização dos recursos naturais do país (como a água,a biodiversidade e as terras). “O interesse do governo é facilitar ao máximo a entrega dos territórios e dos bens naturais às empresas transnacionais,insistindo em aplicar o modelo neoliberal que já colapsou. É nos territórios das comunidades onde estão esses recursos e por isso o próprio presidente Alan García nos ataca”,diz Miguel Palacín coordenador geral da Coordenação Andina das Organizações Indígenas (Caoi). Ainda em julho do ano passado,foi feita uma greve geral no país que obteve a revogação de duas dessas leis,além de uma promessa de abertura de uma mesa de negociação. Mas,de acordo com Palacín,os grupos nunca foram chamados para o diálogo e diante das novas ofensivas,decidiram partir para a ofensiva. Decretos legislativos Os movimentos indígenas contestam pontualmente nove decretos;alegam que eles ferem a Constituição e acordos internacionais que o Peru é signatário. Um desses decretos (nº 1090) delega ao Ministério de Agricultura o poder de autorizar a devastação,em até 60%,de bosques para operações de petroleiras,mineradoras e indústrias. No dia 19 de maio,ele foi declarado inconstitucional pela Comissão de Constituição do Congresso Nacional,decisão festejada pelos movimentos sociais. Agora,a lei voltará ao Congresso para ser votada novamente. Na próxima semana,outras cinco leis serão votadas pela Comissão. Um dos argumentos usados pelos movimentos para derrubá-las,além da inconstitucionalidade,é que eles ferem a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos Povos Indígenas. As outras duas leis anteriormente barradas permitiam a venda de terras indígenas para a iniciativa privada. Para Palacín,o objetivo do governo García é fazer “desaparecer as comunidades andinas e amazônicas,pré-existentes ao atual Estado,e tentar mudar nossas formas de organização e de tomada de decisões”. Atitude que também vai ao encontro dos interesses imperialistas na região,já que o Peru,junto com a Colômbia,é um país central para a manutenção da presença militar e política dos Estados Unidos na região. “Com a desativação da base de Manta [localizada no Equador e que deverá se desativada,a pedido de Rafael Correa,até novembro deste ano],há uma investida para a construção de bases militares no Peru”,afirma o agrônomo Elder Andrade,professor do Departamento Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre (UFAC). Repressão Outra norma contestada pelos movimentos sociais peruanos é a Lei de Recursos Hídricos,promulgada em março deste ano e que abre a brecha para a privatização da água. As comunidades amazônicas em greve há 40 dias prometem manter a paralisação até conseguirem conquistar uma mesa de diálogo com o governo. Até agora,García tem ignorado as organizações populares. “Ele praticamente desconhece nossa existência e nos acusa de ser um empecilho para o desenvolvimento do país”,explica Palacín. Os governos provinciais tampouco têm uma postura menos repressiva. “Há muita diversidade de posturas políticas nos governos provinciais e regionais,mas a maioria,incluindo os que se dizem de oposição,se alinha com o modelo econômico neoliberal,de saque aos bens naturais e depredação da natureza,ainda que alguns deles formem mesas de diálogo,os acordos não são cumpridos”. A esse cenário politicamente conservador,soma-se um forte clima de contenção social. Palacín explica que a violência e criminalização aos movimentos sociais vêm sendo institucionalizadas no país. Em 2007 o governo,também por meio de decretos legislativos,tornou legal a repressão e prisões em protestos populares. Palacín conta que hoje há cerca de mil líderes comunitários respondendo por processos na Justiça.

Concessionário privado dos Transportes Metropolitanos lucraráR$ 185 milhões ao ano,aponta estudo

Poder público vai controlar tarifa de novo bilhete em SP,diz governo paulista
SÃO PAULO –O valor da tarifa do futuro Bilhete Integrado Metropolitano (BIM) –sistema em que o usuário do transporte público da Grande São Paulo poderáse deslocar por um determinado tempo usando um bilhete eletrônico –continuaráa ser administrado pelo poder público,garante Paulo Menezes,gerente de planejamento financeiro do Metrô. A empresa que ganhar a licitação para prestar os serviços de arrecadação das tarifas do Metrô,da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e da São Paulo Transporte (SPTrans),teráde pagar uma remuneração mensal ao poder concedente e não deveráopinar sobre o valor das passagens,diz o técnico.
"Éo poder contratante –governo do Estado e a Prefeitura de São Paulo –que definiráos valores das tarifas. A empresa que ganhar a concorrência apenas prestaráos serviços de arrecadação",afirma Menezes. O usuário teráum bilhete inteligente carregado com um certo valor de crédito que serádescontado nas viagens a serem feitas no sistema integrado. Estudo realizado para o Metrô,que administra a licitação,mostra que a empresa ou consórcio que vencer a concorrência terálucro líquido de R$ 185 milhões por ano,jádescontados cerca de R$ 18 milhões anuais que deverão ser remetidos ao governo e àPrefeitura.
O dinheiro entrarános cofres da empresa a partir do terceiro ano de concessão. Segundo Menezes,os R$ 18 milhões são referentes ao direito de explorar os no vos nicho de mercado que aparecerão com o BIM,como cartões,porta-moedas e outras tecnologias previstas para dar suporte ao bilhete. O vencedor da licitação do BIM também teráde pagar pelo menos R$ 200 milhões àPrefeitura pelos investimentos járealizados na implementação do bilhete único eletrônico na capital,além de investir R$ 310 milhões para instalar o novo sistema. (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)
NOTA DO IZB: O governo diz que ‘controlará’a tarifa e seus reajustes. O problema éque um ÚNICO CONSÓRCIO ‘controlará’todo o sistema de transporte metropolitano e teráa ‘faca e o queijo’nas mãos para fazer pressões por aumentos de tarifas. Quem não se lembra das greves de ‘patrões’nos anos 80 e 90,quando empresas recolhiam os ônibus mandando os usuários se danarem,e sóvoltavam a circular após aumentos tarifários? Ainda nem privatizaram trens e metrôe as tarifas em São Paulo jáestão entre as mais altas do País. Pobre trabalhador. Como dizia o ‘maluco beleza’,pros tucanos ‘a solução éalugar o Brasil’,sóque nós vamos pagar tudo…

MEMÓRIA:Guta morreu

Aos 62 anos,morreu na sexta-feira,15 de maio de manhãno Rio de Janeiro Maria Augusta Carneiro Ribeiro,a única mulher entre os treze presos políticos trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick,seqüestrado em 1969 pelo MR-8.
Ela estána célebre foto em que o grupo –que incluía Rolando Frati,Ricardo Zaratini,Agonauta Pacheco,JoséDirceu,JoséIbrahim,Vladmir Palmeira,Flávio Tavares e outros presos políticos –aparece em frente ao avião da FAB que os levou para o México. Dez anos depois,com a Anistia,voltou ao Brasil. Desde 2003,trabalhava como Ouvidora da Petrobras.
Guta,como era conhecida,sofreu um acidente em Búzios (RJ) hácerca de um mês,e desde então estava internada no hospital Copa d’Or.
Numa foto que correu mundo em setembro de 1969,Maria Augusta Carneiro Ribeiro,então com 22 anos,era a única mulher entre o grupo de guerrilheiros trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick,que incluía o deputado JoséDirceu.
Na imagem histórica,Guta,como preferia ser chamada,não esboçava uma de suas marcas mais fortes:o sorriso franco e aberto. O momento era de extrema tensão. Naquela altura,a polícia política jáhavia localizado o cativeiro no qual um comando do Movimento Revolucionário 8 de Outubro,o MR-8,mantinha o embaixador,no Rio de Janeiro. Corriam rumores de que,se conseguisse resgatar o americano antes de os prisioneiros políticos chegarem ao exílio,no México,eles seriam atirados do avião em alto-mar. Outro detalhe crucial éque os belos dentes de Guta haviam sido quebrados a murros por um torturador.
Guta,58 anos,preferia não lembrar esses detalhes. Mas se emocionava atéas lágrimas ao contar os reflexos de seu trabalho nos grotões do País. No comando da Ouvidoria da Petrobras,ela colocou em prática uma política que priorizava os direitos humanos. “Embora com armas diferentes,continuo fazendo a mesma coisa,lutando por um Brasil melhor”,comparava. A reviravolta começou na própria empresa,onde,durante 49 anos,as mulheres eram identificadas no masculino. As geólogas assinavam,portanto,como geólogos. As secretárias exibiam crachácomo secretários e por aíafora. As mudanças mais emblemáticas,porém,aconteceram nas comunidades nas quais a Petrobras atua,numa perspectiva de empresa extratora que assume responsabilidades. Tudo sob o olhar atento de Guta e o apoio de um voluntariado corporativo que reúne mais de 1.200 pessoas e envolve 66 municípios. E ela ainda encontrava energia e tempo para se dedicar aos três filhos,o mais velho,28 anos,nascido com uma lesão cerebral grave,na Suécia,nos tempos de exilada. (enviado por Alyda –Grupo Consulta Popular)

Uma casa para Vlado vivo

 

Família e amigos criam em junho,quando jornalista faria 72 anos,o Instituto Vladimir Herzog

A tarefa dos homens,a cada tempo,não ésópreservar o passado,mas realizar as suas esperanças. Foi nesse famoso pilar,plantado pelo filósofo Walter Benjamin,que se inspiraram a família e os amigos de Vladimir Herzog para dar uma virada em três décadas de homenagens rotineiras e anunciar,para o dia 25 de junho,a criação do Instituto Vladimir Herzog.
A data diz tudo. "No dia 27,meu pai estaria completando 72 anos",lembra o engenheiro Ivo Herzog,42 anos,filho mais velho do jornalista. "O que queremos éque ele e o instituto sejam identificados com a vida,com o hoje. Com a figura do Vlado ativo,jornalista,fotógrafo,cineasta,ligado a rádio e TV,professor da ECA. Um homem multimídia,como tantos de hoje,mas bem àfrente de seu tempo. E também ligado àdefesa dos direitos humanos",diz ele.
O ministro Paulo Vanucchi e autoridades ligadas àcausa devem comparecer àcerimônia de fundação,na Cinemateca. O programa incluiráhomenagens a dom Paulo Evaristo Arns,ao rabino Henri Sobel e,in memoriam,ao pastor James Wright –as figuras que deram apoio àfamília e enfrentaram a ditadura quando Vlado foi morto.
A ideia,que jáexiste como site,surgiu háum ano. Ivo,sua mãe Clarice,o irmão Andrée muitos amigos estavam insatisfeitos com a imagem que ia ficando de Vlado –morto,pendurado numa janela,numa montagem grosseira para simular seu suicídio. Queriam,além disso,retomar uma participação mais direta no prêmio Vladimir Herzog.
Além disso,antecipa Clarice,o plano écriar um espaço físico em que se reúna a documentação –textos,fotos,filmes –para que seja usada por estudantes,principalmente. "Somos sempre procurados para falar dele,contar como tudo aconteceu naquele ano,reviver a história. Isso tem de ser organizado",avisa a empresária. Daía missão do instituto:"Contribuir para a reflexão e produção de informação voltada ao direito,àjustiça e ao direito àvida."
Mas háum longo caminho pela frente. Com apoio de várias instituições,como OAB,ABI,Sindicato de Jornalistas e Comissão de Justiça e Paz,o grupo tem de correr atrás de recursos. Uma das saídas éaLei Rouanet. Fisicamente,ficarão de início em um prédio da Bela Vista. E a nova entidade chega com mudanças no prêmio:agora estudantes poderão inscrever seus projetos de matérias e as melhores ideias serão patrocinadas.
O jornalista Sérgio Gomes,velho amigo dos Herzog,éum dos entusiastas da causa. "O Vlado era um multimídia jánaquela época. Mas por que lembrar sódele? E os outros,suas esperanças e lições? E como viver na prática,hoje,o que todos eles sonhavam?"
Outra das ideias évalorizar o que chamam de "direitos humanos intangíveis"–temas como corrupção ou atentados ao meio ambiente,cujo estudo vão valorizar.
E para sua luta Ivo traz àmemória um episódio recente com dom Paulo. "Foi ele quem primeiro nos acendeu a chama,em um encontro no qual me passou um pequeno pedaço de papel. Pedia que,pela memória de meu pai,fizéssemos alguma coisa na direção de paz,solidariedade e vida",recorda. Ele espera que o instituto seja a resposta. (Gabriel Manzano Filho –Agência Estado)

Quadro internacional ajuda a compreender a “maratona”

Contribuição sobre a situação mundial

Quadro internacional ajuda a compreender a “maratona”

por Ana Cristina Machado

 

Postado:Debate Socialista

Etapa “superior”do imperialismo?
As teses do campo ao Congresso afirmam corretamente,embora sem muita modéstia na formulação (ao parafrasear a genial e consagrada fórmula de Lênin sobre o imperialismo como “etapa superior”do capitalismo),que:
“As mudanças no modo de funcionamento do capitalismo,na busca incessante para reverter a tendência àqueda de suas taxas de lucro,vieram alterando,desde o início dos anos 80,a relação de forças entre o capital e o trabalho em favor do primeiro. Inaugurou-se um novo momento na história do capitalismo –a etapa superior do imperialismo. Sob o domínio cada vez mais evidente do capital financeiro globalizado,o modo de produção capitalista exacerba todas as suas contradições e antagonismos,tornando-se uma perigosa ameaça para o futuro da humanidade.”
Ébom lembrar que as mudanças no capitalismo apontadas pelas teses foram;“(1) O crescimento intenso da concentração,fusão e centralização dos capitais, que “potencializou sua capacidade de comandar o trabalho em escala mundial”. E “(2) As inovações tecnológicas (que) introduziram alterações importantes no processo produtivo e tornaram muito mais heterogênea a classe operária”.
Concordo que a correlação de forças de hoje não émais,em termos de mais longa duração (o que antes chamávamos de “etapa”ou “era”),a que vivíamos nos anos 80. Émuito mais desfavorável. Mas tampouco a conjuntura éa dos anos 90. Creio que precisamos nos debruçar sobre o texto da tese,fazer o esforço sobre-humano de estudar a situação mundial nos últimos 25 anos do século XX,para enriquecer esse esboço do quadro internacional de longa duração.
Um bom começo énos perguntar o que háde diferente na situação de hoje em relação aos anos da ordem mundial da Guerra Fria (1945-1991). Talvez buscar,na História do capitalismo em geral,e do século passado em particular,a origem das diferenças que vieram se aprofundando e se combinando no transcurso dos últimos 35 anos,para nos responder atéque ponto hámesmo algo de qualitativamente “superior”na ordem imperialista deste início de século XXI.
Arrisco que a situação atual éa resultante,ainda em ebulição,de uma combinação mais complexa (e mais ordenada) do que aquela esboçada na tese,ou seja,dos seguintes fatores históricos:
1. No terreno da economia capitalista: O sistema capitalista se debate,desde os seus primórdios,com o que Marx chamou de lei da tendência decrescente da taxa de lucros. Essa tendência viu-se exacerbada nos anos da Guerra Fria por pelo menos três barreiras àmaximização dos lucros:(1) o Wellfare State,os Estados de Bem-Estar Social da Europa reconstruída,ou seja,pelas grandes conquistas dos trabalhadores,que impediam os aumentos maiores de extração de mais valia no Velho Continente;(2) as limitações para a livre circulação de capitais impostas pelas políticas nacionalistas do então chamado “Terceiro Mundo”e pelas próprias regras do jogo das finanças,inscritas no então vigente acordo de Bretton Woods (os juros eram tabelados e os Estados Nacionais controlavam em maior ou menos medida as remessas de lucros e dividendos para o exterior);e (3) o fato de que um terço da humanidade,sob o tacão dos Estados burocráticos que se diziam socialistas,estavam virtualmente fora do mercado global (embora sob profundo impacto,como constatamos depois,desse mesmo mercado).
O capitalismo imperialista respondeu,então,às crises do padrão-ouro(*) e do petróleo dos anos 70,com medidas que ficaram conhecidas como de “desregulamentação dos mercados financeiros”. Tentando traduzir:o capital imperialista aproveitou-se de uma conjuntura de endividamento dos Estados Centrais àbanca internacional,para pôr fim aos limites aos juros (e lucros) bancários e aos controles que havia para a livre entrada e saída de capitais dos diversos mercados nacionais. Esse “liberou geral”intensificou a dominância e a autonomia relativa dos setores financeiros sobre os rumos do conjunto do sistema,inaugurando um momento de simbiose ainda mais estreita entre o capital especulativo,financeiro,com o chamado capital atuante (aplicado na produção de mercadorias e serviços,aquele que extrai diretamente a mais valia dos assalariados).
Sobre a interessante definição de capital financeiro e de imperialismo (e de imperialismo “superior”),ébom ler a Virgínia Fontes (Imperialismo e classes sociais e conjuntura:capitalismo autônomo?**).
Intensificam-se nos anos 80,com um salto de qualidade nos 90,os movimentos de concentração de propriedade (fusões e aquisições em busca de maximização de lucros),participações cruzadas de umas corporações nas outras,desnacionalizações e privatizações,e inchaço cada vez maior do mundo das finanças (bolsas,bancos,corretoras) diante do mundo da produção. Movimentos que játinham começado com a reestruturação produtiva toyotista do Pós-II Guerra. Assim,esses movimentos dão base estrutural ao que as teses apontam como a “capacidade dos centros capitalistas mais poderosos em comandar o trabalho em escala mundial”. Melhor dizendo,em comandar a mais eficiente e brutal extração de mais valia dos trabalhadores e povos do mundo.
Mas a mundialização do capital,ou globalização financeira,não teria assumido as formas concretas que assumiu,nem a dimensão atingida nos neoliberais anos 90,caso não tivesse o capitalismo imperialista contado a partir da década de 60,com o salto tecnológico-gerencial introduzido pelo toyotismo na indústria e,a partir dos 80,com o fôlego de um salto tecnológico nas áreas da microeletrônica,das telecomunicações e da informática. A chamada “revolução tecnológica”devolveu aos EUA a vanguarda tecnológico-produtiva,perdida para o Japão toyotista nas décadas anteriores,abriu uma nova frente de crescimento econômico dentro e fora dos EUA e acelerou a velocidade antes impensável a circulação dos capitais financeiros jáliberados pela desregulamentação.
Ao possibilitar que a produtividade desse um salto ainda maior,a custa de milhões de postos de trabalho,os salto tecnológico da TI (Tecnologia da Informação) foi uma das bases para o incremento de desemprego,precarização do trabalho,enfraquecimento da classe operária industrial,queda na participação dos salários nas rendas nacionais,retrocessos nos direitos trabalhistas e na organização sindical dos assalariados. Assim,a humanidade chegou ao fim do século XX com um bilhão de pessoas,ou um terço da população economicamente ativa,ou desempregada ou precarizada.
2. No terreno político-ideológico:
Com o perdão dos economistas,não háanálise da realidade possível sem a dimensão social e política. E aqui vai uma imodesta crítica ao texto final da tese:carece de um equilíbrio e combinação maiores entre os vetores econômicos e político-ideológicos da crise capitalista. Nada do quadro acima descrito teria saído tal como saiu,não teríamos o capitalismo que temos hoje,nem a correlação de forças entre classes e estados que temos hoje,sem a colaboração dos decisivos processos e acontecimentos que levaram,entre 1989 e 1991,ao colapso da então União Soviética,àqueda dos regimes burocráticos do Leste europeu e a trágica e atéhoje subdimensionada restauração capitalista da China .(A burocracia de Pequim derrotou o movimento pró-democratização,talvez o mais socialista dos movimentos do fim dos anos 80,vide o interessantíssimo trabalho “A pesada herança histórica da China moderna”,do companheiro Vito Letizia).
Foi esse conjunto de processos que abriu as avenidas para a cantoria da vitória do neoliberalismo,da qual atéhoje são vítimas os povos do mundo (e os socialistas e comunistas em particular). “Não háalternativa”,proclamou em 1980 a pioneira Margareth Thatcher. E durante mais de 15 anos,Misses Thatcher pareceu ter razão.
A tese do campo localiza de forma secundária o papel dos fatores político-ideológico para o desenho do tempo atual. Colocando o grande fenômeno da luta de classes do fim do século no 11°parágrafo do texto,a tese parece corroborar ou se aproximar da visão dos economistas “espontaneístas”,que consideram todas as transformações do capitalismo como produto exclusivo de processos infra-estruturais,sem participação da esfera política (que diráda luta de classes…). Sugiro que repensemos o texto da tese,para localizar melhor a chamada “queda do muro”em seu devido lugar,protagônico,e para dar àChina o lugar que a nova potência merece,como fator fundamental de combustível para o crescimento da economia capitalista mundial nos últimos 10 anos.
Para mim,a ex-União Soviética e o Leste europeu,de um lado,e a China restauracionista de outro,foram dois fios do mesmo facão. Colaboraram ambos para a retomada de fôlego do capitalismo imperialista no terreno econômico e para o que JoséLuís Fiori (O Poder Global,Boitempo Editorial,2007) chama de “desestruturação do campo das idéias e projetos políticos do século XX”.
Depois da leitura da entrevista do economista e militante francês François Chesnais àDebate Socialista n°2 e,particularmente,do texto do Vito Letizia sobre a China,me convenci de que épreciso pôr a China no seu devido lugar,de protagonista do redesenho da ordem mundial. Há(ou poderia haver) um interessantíssimo debate em aberto na esquerda marxista. Terárazão Chesnais,que diagnostica a China como futuro imperialismo,sócio e competidor do hegemônico império anglo-saxão? Ou não caberia ter mais cuidado e,levando em conta o conceito de subimperialismo tão bem definido pelo economista brasileiro Ruy Mauro Marini (que,foi,junto com Gunder Frank,da ala marxista da chamada “teoria da dependência”),pensar na China como gigante intermediário,destinado a combinar,tal e qual o Brasil (mas sempre em proporções chinesas),o papel de economia subordinada em relação ao centro do poder econômico e político e,ao mesmo tempo,de explorador direto dos países semicoloniais da Ásia e da África? (Ler,disponíveis na internet,no sítio www.marini-escritos.unam.mex “Subdesarrollo y revolución”e “La acumulaçión capitalista mundial y el subimperialismo”***)
De qualquer forma,enquanto estudamos e damos tempo àHistória,uma análise internacional minimamente séria nos dias de hoje que não ponha a China no centro dos acontecimentos estádesconectada do mundo real.
2. No terreno da relação entre estados (ou geopolítico):
Unipolar mas não todo-poderoso
Diretamente relacionado com a débâcle do chamado “socialismo real”,ficou ferida de morte a ordem superestrutural (institucional) global que durante 56 anos regeu os destinos do mundo. Hámais de 15 anos,os analistas,acadêmicos e a esquerda socialista do mundo todo debatem caminhos e descaminhos da “nova ordem”unipolar,dirigida manu militari pelo Império com sede em Washington (que o Fiori chama de “nova espécie de império anglo-saxão”,dado o papel importantíssimo da aliança com a velha e experiente Inglaterra,como braço avançado dos EUA na Europa).
Os EUA não são o primeiro imperialismo unipolar da História,mas sem dúvida são o primeiro tão poderoso do ponto de vista militar,com quase 10 vezes o arsenal do segundo colocado no ranking (a Rússia). Mas,sob o impacto dessa unipolaridade e do bestial poderio bélico do Império,as análises e caracterizações acabaram tendendo a exagerar a capacidade de controle dos EUA sobre o mundo pós-muro. E a reduzir o impacto,na luta entre classes,povos e estados,da súbita inexistência de aparatos controladores do “outro lado”,com foi o stalinismo durante 60 anos. Ou seja,os EUA são os donos e polícia política do mundo,mas têm mais dificuldades do que nos anos da Guerra Fria para estabilizar a situação no globo.

Periferia subserviente (na longa duração)

Mas houve outra mudança,muito menos estudada e debatida pela esquerda socialista,em particular a latino-americana (ironicamente,quiçápor razões de ignorância e de classe,muito influenciada pelas modas acadêmicas nos países centrais) e que tem uma importância primordial para entender a América Latina,o Brasil,os processos venezuelano e boliviano.
Para entendê-la épreciso dar um pequeno rew na fita e lembrar que os anos da Guerra Fria foram também anos de intensas lutas e conquistas anticoloniais. Foi nos anos 50,60 e 70 do século passado que o mapa múndi mudou qualitativamente (mais do que com a queda do muro),com o surgimento de dezenas de novas nações ou Estados multiétnicos na Ásia,África,Oriente Médio e Oriente Próximo. Foram anos de apogeu dos nacionalismos burgueses:do nacionalismo pan-árabe,do nacionalismo persa,da independência da Índia e de quase todos os países do Sudeste asiático,dos movimentos antiimperialistas de massas no nosso subcontinente,tais como o peronismo na Argentina,o aprismo no Peru,o emenerrismo na Bolívia revolucionária,Getúlio Vargas no Brasil).
Nosso tempo (de longa duração) éum tempo de retrocesso dessa grande onda anticolonialista e nacionalista. Houve,em sincronia com o fim da ordem de Ialta e Postdam,um recuo importante dos movimentos operários e populares de contestação ao imperialismo. Os economistas tendem a ver tal tendência como um resultado fundamental (ou quase que exclusivo) de processos estruturais,das contradições do próprio capitalismo. Tal vetor com certeza pesou e muito. O problema éque também teve seu papel o beco sem saída programático imposto a dezenas de povos por direções burguesas ou pequeno-burguesas nacionalistas,anti-socialistas,que se negaram ou não puderam ir,por força de golpes ou invasões diretas do imperialismo,mais longe no enfrentamento aos centros do sistema (vide Argélia,Egito,Síria,Nicarágua,Irã).
Vivemos,desde os anos 70 do século passado,uma grande mudança superestrutural na periferia do sistema,com uma total homogeneização dos governos de estados de passado colonial ou neocolonial,através da adoção generalizada de políticas econômicas pró-metrópoles,que redesenham negativamente as formas de inserção desses países e povos no sistema,de um modo totalmente subordinado aos quartéis-generais das finanças globalizadas. Éo tempo da “reversão neocolonial”,que,como resultante,geopolítica,acentua “a distância entre o poder e a riqueza dos estados do núcleo do sistema e os de sua periferia” (Fiori,pág. 52).
(Note-se que Fiori,assim como outros nacional-desenvolvimentistas,considera que a nova ordem mundial em gestação desde os anos 90 representou não sóa derrota da idéia do socialismo —para eles jáderrotado por si mesmo dos anos 70 em diante,por suas próprias limitações —como principalmente a derrota dos projetos nacionais de resistência ao imperialismo. Escutei de outro nacional-desenvolvimentista,este de Relações Internacionais da UFF,que a vitória do neoliberalismo foi um vitória assestada diretamente sobre as aspirações nacionais,antiimperialistas,dos países periféricos,jáque —sic—“o socialismo,dada a crise econômica da cortina de ferro,jáestava derrotado de antemão”. Não reivindico essa visão,mas creio interessante pensar sob esse prisma,para compreender melhor a origem,com peso no político-ideológico,do processo que Caio Prado e o companheiro Plínio Jr. chamam de “reversão neocolonial”).
3. Sobre a “reversão neocolonial”,a América Latina e o Brasil,duas observações.
Se éverdade que,do ponto de vista da longa duração,podemos falar de um tempo de retrocesso no embate antiimperialista e de redesenho (para pior),no contexto da mundialização do capital,das formas de inserção dos países periféricos ao sistema capitalista-imperialista,também éverdade que a América Latina hoje écenário dos processos mais importante de resistência a essa tendência:Venezuela,Bolívia,Equador. Talvez tenha começado aqui pela região,a partir deste início de século,um movimento que se opõe a essa reinserção subordinada,a essa reversão. A batalha estáem pleno curso.
Para o Brasil especificamente,creio insuficiente o conceito de país em “reversão neocolonial”,ou em primarização (um conceito de aplicação muito mal-estudada para o caso brasileiro),ou ainda,como prefere o PCB,em processo de desenho de “uma condição colonial de novo tipo”. Evidente que,sob a égide do neoliberalismo,o sistema capitalista-imperialista nos reserva um papel de produtor de matérias-primas e produtos de consumo não-duráveis principalmente,além de fiel seguidor das políticas fiscais e tributárias a serviço do pagamento dos títulos que alimentam a ciranda financeira global,àcusta da hipermais-valia de nossos assalariados e subempregados famintos. Mas enxergar apenas isso é,para mim,como ver a realidade em preto e branco. A formação sócio-econômica do país tem mais nuances e colorido.
Com sua desigualdade sócio-econômica escandalosa,o Brasil éum mercado limitado para os próprios capitalistas locais,sócios servis dos patrões do norte,e por isso sua burguesia busca mercados vizinhos para expandir-se. Para mim,caracterizar o Brasil como economia subimperialista,e ao governo de plantão como um governo com afãs subimperialistas,não épara nada contraditório com a posição subordinada do capitalismo brasileiro em relação aos centros imperialistas. Ao contrário,écomplementar.
Por que um tempo ou etapa de transição
Creio que fomos bastante ousados em arriscar uma definição genérica de “etapa superior”do imperialismo. Ousadia que tem a ver com o “economicismo”que predomina no texto da tese. Acredito que,introduzindo elementos de política,de luta de classes e de conflito entre povos e estados na nossa análise,émais cuidadoso,recomendável,avaliar o momento atual,iniciado como o “fim do muro”como um tempo ou etapa desfavorável,sim,do ponto de vista da correlação de forças mundial,mas também de transição do ponto de vista do redesenho uma ordem mundial estabilizadora. Visão que,para mim,inclui apontar,como aponta a tese,as novas características econômicas do imperialismo,mas sem desprezar as profundas contradições e incertezas oferecidas pela esfera política.
Em outras palavras,concordo que a correlação de forças édesfavorável aos trabalhadores e povos do mundo. Mas não creio que jáesteja dada,construída,muito menos consolidada,a nova ordem mundial pós-Guerra Fria. Para mim,nosso “tempo”émuito mais de desordem do que ordem (para os que gostam de comparações históricas,com todos os seus limites,émais parecida com o período 1923-1939,sem grande depressão,ainda).
Do ponto de vista da conjuntura (mais precisamente dos últimos 5 anos),creio que a situação se caracteriza por:
(1) No marco da crise estrutural do capitalismo-imperialista,um momento de crescimento do comércio e da produção globais,com conseqüente e paralelo crescimento da concentração de riqueza e poder dos Estados imperialistas centrais (aos quais se deve somar a China restaurada,com ganhos reais,objetivos para as burguesias imperialistas,mas também para milhões de membros das classes médias do centro,das economias médias e para trabalhadores dos setores de ponta do sistema). Vivemos 5 a 6 anos de crescimento contínuo,com sustos financeiros cíclicos,éverdade,mas sem nenhum indício sério,por enquanto,de um colapso a la 1929. Esse crescimento éresultado tardio das décadas de ganho de produtividade e recuperação das taxas de lucro,possibilitados pela reestruturação produtiva,mas se vêsustentado pela entrada em cena do gigante chinês no mercado capitalista mundial. Édesse cenário que,em grande medida,tira fôlego o governo Lula. Édesse cenário que tiram fôlegos os bancos centrais dos países ricos para injetar 3,9 trilhões de dólares nos sistemas financeiros,para evitar um colapso diante da crise das hipotecas norte-americanas.
(2) Fortalecimento da China como candidata séria a novo pólo imperialista ou subimperialista,sócio,maior ou menor,e ao mesmo tempo competidor do eixo EUA-Europa-Japão. Essa novidade jámudou a situação econômica mundial,acirra contradições do sistema como as da energia e a do endividamento do Estado norte-americano. E deve vir a ter papel fundamental em agudizar novas contradições de ordem política. Embora seja pouco provável o desenho de uma concorrência China-EUA no nível das disputas inter-imperialismos europeus que antecederam a II Guerra Mundial,o gigante asiático passa a jogar um papel importante no tabuleiro das disputas pela influência sobre os governos do Terceiro Mundo.
(3) O atual conjunto de instituições mundiais inter-estatais (ONU,OTAN,FMI,Banco Mundial,OEA etc.) éuma sombra semimorta do que foi a poderosa superestrutura da Guerra Fria. Esta superestrutura não corresponde mais àreal correlação de forças entre classes,povos e estados do novo século. Basta ver a facilidade e desfaçatez com que EUA,Israel,mas também Coréia,Irã,Rússia e outros ignoram solenemente suas resoluções. Os organismos financeiros herdeiros da finada ordem de Bretton Woods vêm perdendo força numa velocidade inédita,porque foram pensados para a etapa anterior,de mercados regulamentados. Épreciso estudar sem preconceitos as novas configurações da espoliação capitalista via dívidas do Terceiro Mundo. Tais configurações parecem ter tirado importância,no impulso da mundialização financeira,da antiga sangria via dívidas externas,para substituí-las pelas invasões de capital via privatizações (investimentos diretos,com remessas de lucros crescentes) e via mercados financeiros “emergentes”(investimentos voláteis,rendimentos dos títulos públicos dos Estados do Terceiro Mundo,que agora sangram muito mais pelas dívidas internas “globalizadas”).
Essa debilidade institucional da transição éum fator favorável a povos e governos que se propõem a ter gestos de independência frente aos donos do mundo. Chávez e Ahmadinejahd que o digam.
(4) Vitórias pontuais das manifestações de resistência ao imperialismo,no mais das vezes capitaneadas por líderes tão estranhos àvelha classe trabalhadora quanto Ahmadnejadh,do Irã,ou os imãs da resistência iraquiana ou o coronel Hugo Chávez. Esse crescimento não éuma explosão,tampouco élinear,ou seja,tem altos e baixos. As expressões operárias e populares dessa resistência têm a seu favor,sim,a fragilidade da ordem mundial nessa era de transição e a ausência positiva das velhas camisas-de-força do stalinismo e da social-democracia. Mas éuma resistência dispersa,pontual,atomizada,diversificada do ponto de vista programático (basta pensar que nesse “campo”estamos nós,o chavismo e o Talibã) e ideologicamente sem referência.
(5) Confusão programático-ideológica, que tem raízes não somente no “fim do socialismo que não houve”,mas também nas mudanças estruturais do capitalismo e da classe trabalhadora nos últimos 30 anos. Se éverdade que a classe operária industrial clássica deixou de ser a vanguarda indiscutível dos processos de liberação,também éverdade que não apareceu nesse período nenhum outro segmento social dos explorados para substituí-la,com a homogeneidade e poder de pressão do operariado industrial ou de serviços. Me parece insuficiente a definição por nós emprestada do Ricardo Antunes de que a revolução virá“dos que vivem do trabalho”.
(6) Combinada a essa dificuldade objetiva para a construção de organizações socialistas revolucionárias,herdeiras das boas tradições das lutas operárias dos últimos dois séculos,some-se a dificuldade subjetiva representada pelo ainda enorme peso das velhas ideologias e metodologias stalino-burocráticas entre os setores que lutam. O debilitamento da classe operária tradicional,depositária das tradições de democracia direta do velho movimento classista,e o crescimento da miséria entre o exército de reserva (os mal-chamados “excluídos”) depositado nos guetos das grandes cidades explicam,a meu ver,o recuo do movimento sindical mais tradicional e o predomínio,entre os movimentos populares mais difusos,de formas de atuação e decisão verticais,de relação clientelista,quando não diretamente corrupta com as bases,formas de disputa mafiosas pelos aparelhos dos sindicatos,associações e ongs (lúmpens,para ser precisa). Esse elemento social ajuda a explicar,a meu ver,o crescimento numérico e a ligeireza/irresponsabilidade política de certas correntes de base “popular”e,por conseqüência,o impasse vivido pelo PSOL.
(7) A nossa América Latina,por fim,é,sim,o cenário em que se expressa da forma mais ampla,generalizada e profunda o embate entre o projeto hegemônico neoliberal e os projetos antiimperialistas (mais ou menos àesquerda,de acordo com as bases sociais dos governos e movimentos/partidos). Nesse sentido,e sónesse sentido,genérico,expressa um embate entre a revolução e a contra-revolução,neste momento. O avanço desse movimento,que contestou nas ruas e nas eleições a subordinação de suas elites aos centros imperialistas (particularmente depois da crise argentina de 2001-2002),tem colocado em xeque,no sentido de dificultar,a reversão neocolonial. Mas não vejo a “crise do Estado nacional”que a tese identifica. Ao contrário,vejo uma ressurreição,ainda que pontual,dos nacionalismos burgueses ou pequeno-burgueses,que tendem a fortalecer momentaneamente os Estados-nação diante do Império.
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(*) A grosso modo,entre 1944 (Conferência de Bretton Woods,que assentou as bases da ordem financeira internacional do Pós-II Guerra,com regra de tabelamento dos juros,controles de capitais e o dólar como moeda de referência para o comércio mundial),o dólar norte-americano era lastreado em ouro físico. Ou seja,o Tesouro dos EUA tinha que ter a correspondente barra de ouro para emitir um,dez ou cem dólares. Com o endividamento dos EUA para fazer frente àGuerra do Vietnãe a explosão dos preços do petróleo em 1973 ­—motivada esta por uma crise geopolítica no Oriente Médio —os EUA abandonam o acordado e o dólar deixa de ter lastro físico,ficando seu valor relacionado diretamente ao desempenho da economia dos EUA.
(**) “A financeirização não deve ser lida de maneira imediata,como nos impele o senso comum,que a considera como o ‘predomínio do dinheiro sobre a produção’. Lênin insistia na mesma tecla que Marx:os diferentes setores do capital e,em especial,o setor bancário e o industrial consistem em diversas facetas do mesmo fenômeno,inseparáveis. Reencontramos aqui a reflexão marxiana,sobre a expansão do ‘capital monetário’(o que precisa se valorizar pela via dos juros) e sua relação estreita e íntima com o ‘capital atuante’(o que se encarrega da extração direta da mais-valia). A escala atingida pela produção industrial no século XIX transformou os bancos,retirando-os da função usurária central que exerciam,convertendo-os em pólos principais (juntamente com o Estado) de financiamento do processo produtivo. Rapidamente,mudam de papel,tornando-se parte fundamental do capital produtivo,ainda que aparentemente descolados do próprio processo produtivo. Esse aparente ‘descolamento’expressa,certamente,contradições entre o setor produtivo de mais-valia e o setor “a juros”,porém essa contradição atua no interior de uma unidade orgânica. A essa unidade orgânica entre o processo produtivo (que atua para satisfazer necessidades do estômago ou da fantasia),Lênin denominava ‘capital financeiro’. A financeirização significa,em termos mais diretos,uma alteração de escala no processo da acumulação de capital e,portanto,uma necessidade imperiosa para portadores de capital de ‘remunerar-se’tendo como ponto de partida massas gigantescas (e crescentes) de recursos. Tais massas de recursos precisam ‘render’(valorizar-se,produzir mais-valia,produzir sobretrabalho) em escala,ritmo e extensão correspondentes àsuas dimensões que,se jáeram consideradas como planetárias por Lênin,tornaram-se agora ainda potencializadas.” (Virgínia Fontes,“Imperialismo e classes sociais e conjuntura:capitalismo autônomo?”,disponível no site do PCB)
(***) “El proceso de acumulación en condiciones de superexplotación,o sea el proceso de acumulación dependiente agudiza asíla concentración y la centralización del capital (la monopolización),beneficiando simultáneamente a las ramas industriales que se separan del consumo popular. En otras palabras,la realización del capital tiende a reducir su relación con el mercado interno.(…) Se observa,así,el surgimiento de una nueva división internacional del trabajo,que transfiere —desigualmente,téngase presente—etapas de la producción industrial hacia los países dependientes,mientras los países avanzados se especializan en las etapas superiores;simultáneamente,se perfeccionan los mecanismos de control financiero y tecnológico de estos últimos sobre el conjunto del sistema. La circulación del capital a escala mundial se intensifica y se amplía,al mismo tiempo que se diversifica su acumulación. Sin embargo,siguen actuando las tendencias a la concentración y a la centralización,propias de la acumulación capitalista,aunque ahora también en beneficio de naciones de composición orgánica intermedia. A esto corresponde,desde el punto de vista estrictamente económico,el subimperialismo. El subimperialismo se define,por tanto:a) a partir de la reestructuración del sistema capitalista mundial que se deriva de la nueva división internacional del trabajo,y b) a partir de las leyes propias de la economía dependiente,esencialmente:la superexplotación del trabajo,el divorcio entre las fases del ciclo del capital,la monopolización extremada en favor de la industria suntuaria,la integración del capital nacional al capital extranjero o,lo que es lo mismo,la integración de los sistemas de producción (y no simplemente la internacionalización del mercado interno,como dicen algunos autores).”(Ruy Mario Marini,Prefácio de “Subdesarrollo y revolución”,Siglo XXI,México,1974)

EM DEBATE:Economia com software livre

ImageClique aqui para ouvir(6’14”/ 1,43 Mb) –O Governo Federal economizou R$ 370 milhões ao utilizar programas de software livre em suas instituições. O dado éda Pesquisa de Software Livre,feita em 2008 pelo Comitêde Implementação de Software Livre (CISL). O número éincompleto,pois apenas 62 instituições públicas,das 99 que utilizam programas de software livre responderam o questionário da pesquisa.
Software livre,ou software de código aberto,équalquer programa de computador que pode ser usado,copiado,estudado,modificado e redistribuído de forma gratuita.

Em entrevista àRadioagência NP,o coordenador do CISL e presidente do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro),vinculado ao Ministério da Fazenda,Marcos Vinícius Ferreira Mazoni,disse que a utilização deste tipo de produto,além de fazer com que o governo economize,gera um debate sobre sermos ou não agentes da evolução,aplicação e preservação de uma tecnologia nacional.

Radioagência NP:Os R$ 370 milhões economizados pelo governo jásão expressivos,mas parece que este montante poderia ter sido maior ainda. Isso écerto?
Marcos Vinícius:Esse dado éextraído de um questionário colocado na rede,portanto,nós sabemos que muitas outras organizações,que também atuam com software livre,não tiveram engajamento no questionário. Então,são dados que ainda não temos. Mas como a nossa preocupação émostrar aquilo que a gente possa provar,nós chegamos a esse número de R$ 370 milhões,contabilizando o que seria a compra de licenças para alguns projetos e a sua substituição por software de código aberto. Repito que éverdade que se todos os nossos planejamentos tivessem sido atingidos,nós teríamos um número maior. Mas o importante éque o nosso plano visa avançar com segurança,portanto,écerto que este número vai crescer daqui para frente.
RNP:Qual seria a economia caso todas as instituições públicas adotassem o software livre?
MV: O Brasil gasta algo em torno de US$ 1 bilhão por ano,com o pagamento de licenças. Se levarmos em conta que [apenas] o governo federal brasileiro corresponde a 55% desse mercado,então estamos falando de US$ 550 milhões gastos em licenças. Éclaro que nem tudo pode ser substituído por software livre,mas esse éo universo de licenças que são pagas pelo país,por isso fazemos esta simulação. Acho que se conseguíssemos substituir até60% disso tudo por código aberto,jáseráalgo fantástico.
RNP:Existe alguma resistência por parte dos órgãos públicos na utilização de software aberto? E,se sim,a que se deve essa resistência?
MV:Háresistência. Isso éalgo natural. Não éalgo forçado por empresários de software proprietário,por exemplo. Éalgo que simplesmente se deve ao conhecimento que as pessoas têm. Aquele usuário final da tecnologia da informação não éum ativista deste “mundo livre”. Ele éapenas um usuário,um simples trabalhador que precisa de seu conhecimento em tecnologia para trabalhar. Então,não éalgo simples,quando o usuário sente que ele não domina a proposta que éfeita de mudança de tecnologia,énatural que ele haja em direção ao que ele acha que émais seguro. Épor isso que muito mais importante do que convencer os nossos usuários finais a mudar de software,éestabelecermos condições de segurança para que ele realize este processo,para que isso ocorra sem nenhum prejuízo,mas sim com ganhos para esta pessoa.
RNP:A implantação do software livre pode ser uma alternativa contra a privatização do conhecimento e algo estratégico para o desenvolvimento de uma tecnologia nacional?
MV:A tomada de decisão sobre o uso de software sempre aparece para a sociedade na economia que se faz com seu uso. Na verdade,essa estratégia tem um outro cunho. Nós podemos manter os investimentos no mundo do software,mas não mais em royalties,e sim,pagando pessoas e conhecimento. O que estamos procurando são elementos que vão além,ou seja,que o Estado brasileiro e mesmo empresas privadas tenham controle sobre a evolução da tecnologia. Assim,eu não fico mais dependente daquele fornecedor de software que faz uma nova versão do seu produto. Com a atualização,o fornecedor decide qual produto vou usar,além de decidir se o investimento em minha infra-estrutura teráuma preservação [poderácontinuar atualizado] de um,dois ou três anos. Investimento em software livre éuma garantia de sermos atores na decisão de como vamos lidar com essa tecnologia ao longo do tempo,isso émuito importante,isso éestratégico.
De São Paulo,da Radioagência NP,Juliano Domingues.

"A luta pela terra écontra o capital"

Gilmar Mauro,dirigente nacional do MST,fala àDebate Socialista sobre a falência do projeto democrático popular,a necessidade de superação do “etapismo”e de rearticulação dos movimentos sociais e da esquerda combativa que “continua desenvolvendo o conflito de classe”no Brasil,na América Latina e no mundo.

Postado:Debate Socialista

Fala,ainda,sobre a atualidade da revolução socialista e a perspectiva de um “salto de qualidade”na ação do MST no próximo período –como produto dos debates que vêm sendo feitos no movimento social surgido em 1984,na cidade de Encruzilhada Natalino (RS) –como produto da combinação da luta pela terra com o enfrentamento àditadura militar que oprimia o país.

Debate Socialista –Como o MST enxerga hoje a política agrária do país,em especial as novas iniciativas do governo Lula,como o anúncio de um novo programa de renegociação de dívidas fundiárias de grandes produtores,que deve custar de R$ 4 a 7 bilhões e coloca a possibilidade de descontos e rolagem de dívidas? Qual cenário que o movimento vêpara a luta pela a reforma agrária como em relação às políticas aplicadas pelo governo Lula?

Gilmar Mauro – Primeiro,nós,em geral no MST,nunca tivemos ilusões de que uma reforma agrária ampla,que efetivamente democratizasse o acesso àterra e aos meios de produção,fosse desenvolvida,num contexto de um governo,inclusive um de esquerda,nos marcos do capital. Entretanto,tínhamos a expectativa que pudesse sim avançar mais,que as desapropriações pelo menos pudessem acontecer em maior número. Enfim,ir-se criando condições para que o processo avançasse. E,na nossa avaliação,no governo Lula avançou-se muito pouco em termos de desapropriações,em termos de enfrentamento ao latifúndio. Muito pelo contrário. Os pequenos avanços obtidos,fruto de um processo de luta também,de certa forma são açambarcados pelo crescimento do agronegócio. A medida que se assenta algumas famílias o agronegócio avança no interior e desassenta mais um monte,as principais terras estão sendo disputadas hoje pelas grandes empresas e o capital financeiro adentra na agricultura como jamais em outro momento da história. Então,a disputa do território agrícola no Brasil se tornou muito mais intensa que antes. E hoje o capital financeiro comanda grande parte dos negócios agrícolas,inclusive de commodities,de exportação,como soja e etc mas,principalmente,voltado para o etanol. Então,essa éa realidade:a luta pela terra hoje passa a enfrentar o grande capital. Se háalgum tempo atrás ainda se tinha o latifúndio improdutivo como o principal inimigo,hoje o principal inimigo éo grande capital financeiro. E isso nos coloca um cenário de enfrentamento de novo tipo. Porque ademais enfrentar grandes conglomerados poderosos,nós enfrentamos também,do ponto de vista concreto,toda uma legislação

 

que não foi em absolutamente nada modificada pelo governo Lula,deixada pelo governo Fernando Henrique Cardoso,o que nos chamamos de ‘entulho autoritario’. E,com isso,um processo cada vez maior de criminalização do movimento social e violência. Mas concomitantemente a isso,e daía impressão de que estáse desenvolvendo a agricultura,convivemos com um atraso nas relações de produção enorme,como a reinvenção do trabalho escravo na agricultura e uma precarização extremamente grande. Isso cria uma série de problemas àluta pela terra,pela reforma agrária,que entra num patamar diferente. Se quiséssemos ainda rechear esse cenário poderíamos dizer ainda que essas políticas de assentamentos,e não de reforma agrária,são parte da lógica de compensação social,tentando-se criar a idéia de que épossível o “agroneocião”e o “agronegocinho”,de juntar pequenos e grandes numa harmonia que todo mundo sabe que não vai dar porque não tem nem como competir. Então,essa éa situação. Somada com outras políticas de compensação social,como o bolsa-família,que criam um novo cenário de novo tipo para a luta pela terra e a reforma agrária. Por fim,do ponto de vista político,um intento de colocar o MST numa espécie de brete –uma espécie de corredor –,do ponto de vista teórico inclusive. Joséde Souza Martins anda defendendo muito essa tese de que teria um “MST ideológico”–que faz a disputa política,fala do socialismo,e um “MST de resultados”–que o MST,enquanto movimento que defende uma categoria,deveria efetivamente adotar uma política de “MST de resultados”. Ora,obviamente,nós não adotamos isso,embora se criem contradições no debate,inclusive interno,não podemos negar isso. Entretanto,o MST se fez e projetou não por um “MST de resultados”,mas porque sempre tivemos uma análise política do campo,um enfrentamento político e uma proposta política de superação disso.
Uma segunda questão dentro disso,do ponto de vista político,são os assentamentos,que “ou se integram àlógica dos agronegócio”,e portanto do mercado,ou estão completamente fora. Então essa éuma condição também difícil de ser enfrentada. Os poucos créditos disponíveis,a luta por obtenção desses recursos tem sido uma luta muito árdua. E esses são enfrentamentos,os desafios que a atualidade nos colocou. Que são diferentes da década do Fernando Henrique Cardoso,que embora não fizesse a reforma agrária,mas era um enfrentamento de outro tipo,onde vocêtinha muito mais aliados,o próprio PT e vários setores da sociedade que hoje são governo também e adotam esse tipo de postura e de política.

Como vocês vêem as novas táticas e ferramentas de luta necessárias para enfrentar o avanço do agronegócio e essa ‘descompensação’que existe no processo de luta social,em função da fragmentação ou ruptura dos vários setores que atéseis anos atrás,apesar das divergências,estavam juntos nas lutas contra os governos?

O Brasil,pela dimensão territorial que tem,tem realidades diferentes. Estou descrevendo aqui mais a realidade do Sudeste,Sul e Centro-Oeste,onde o desenvolvimento do capitalismo na agricultura adquire um caráter e uma intensidade muito maior que nas outras regiões do país. Entretanto,também nas outras regiões do Brasil,obviamente,o capital financeiro adentra nos territórios agrícolas. Éo caso do Pará,onde se vêa busca por controlar os territórios e todos os recursos da biodiversidade. Também no Nordeste,onde vemos a transposição do rio São Francisco e outras coisas. Então,tem ainda em determinadas regiões do Brasil o que se pode chamar de um determinado latifúndio,atrasado,que ainda tem um campo de luta que o MST vai continuar desenvolvendo e desempenhando. E tem ainda resquícios disso aqui mesmo em São Paulo.
Agora,o grande enfrentamento éao capital financeiro e isso nos coloca muitos desafios na atualidade.
Primeiro,que não éum problema que o MST sozinho deve enfrentar,nós não temos força suficiente para enfrentar isso porque éparte da lógica do capital. Ésómais um espaço de valorização do capital o investimento que eles fazem na agricultura.
O segundo aspecto do desafio éque os movimentos sociais nos últimos períodos também tiveram enormes dificuldades,se enfraqueceram. Eu posso dizer atédo próprio Movimento Sem-Terra –o que não quer dizer que o movimento estáacabado. Não estáacabado,mas enfrentou uma problemática que o deixou numa situação de menos força do que játeve no passado.
O terceiro jáfoi dito,que éo fato dos aliados históricos que nós tínhamos na luta pela terra e a reforma agrária hoje defendem a lógica do grande capital,a lógica do agronegócio.
Então,são muitos os desafios postos. O que nós estamos tentando trabalhar,inclusive do ponto de vista interno,é:primeiro,buscar trazer para o debate um tema que acho um dos temas fundamentais do momento,que éa questão da natureza,da ecologia e dos problemas do desenvolvimento do capitalismo para a humanidade. Se nós continuarmos a desenvolver essa lógica,eu não tenho dúvidas de que caminhamos para a destruição do planeta Terra. E não éuma profecia,um negócio quase apocalíptico. Éum problema objetivo. Épreciso produzir um monte de mercadorias,cada vez com menor durabilidade,e para isso se extrai matérias-primas,que vêm da natureza. E vai destruindo,ao mesmo tempo que vai criando uma super-produção de mercadorias e de lixo. Ésóverificar o que estáacontecendo no Rio de Janeiro com a epidemia da dengue,o rio Tietê[na capital de São Paulo],os carros aqui em São Paulo,a emissão de gases tóxicos na atmosfera,a utilização de agrotóxicos,a contaminação dos lençóis freáticos,a utilização –em grande medida para exportação –de água.

Entramos na fase das guerras pela água…
Isso. Éa guerra pela água. E do total da água do planeta,97% éágua salgada,2,3% éágua das calotas e apenas 0,7% éágua aproveitável. Atépode se inventar tecnologia para dessalinizar a água,mas ainda écaro hoje. Então,toda essa lógica leva àdestruição do planeta. E esse éum combate fundamental do MST na atualidade,não éa terra propriamente. Claro que a gente tem que conquistar a terra,esse éo nosso objetivo. Agora,encampar esse debate político écombater a lógica do capital. Porque se nós não resolvermos esse problema,essa situação não se resolve. Não tem projeto de desenvolvimento sustentável sob a égide do capitalismo,isso não existe,éuma ilusão.
Esse éum grande tema que nós temos trabalhado.
O segundo tema,que também tem a ver com essa lógica,écombater todo o processo de precarização,de perdas de direitos sociais da classe trabalhadora. Direitos que às vezes não éaprovado no Congresso a perda do direito,mas que ela efetivamente se realiza na medida em que não se tem uma política pública,controle. A precarização do trabalho agrícola,o trabalho escravo são parte da lógica da inserção num certo sentido subordinada da nossa economia na globalização,que exige para competir internacionalmente que diminua-se os custos de produção. Então diminui-se direitos sociais e trabalhistas porque épreciso,como eles dizem,“baixar o custo Brasil”e com isso ter um lugar dentro do mercado internacional. Isso também éparte da lógica. Não éuma questão de um capitalista individualmente. Se o cara não baixar o preço da produção,perde competitividade. E ao perder competitividade,o mercado éimplacável. Éuma lógica. Não tem:‘me dáum pouquinho do capitalismo’ou ‘um capitalismo melhor’. O capitalismo éuma relação social que se aplica na sua totalidade e obedece a lógica estabelecida. Esses dois aspectos nos levam,e éum debate interno muito intenso,na luta pela reforma agrária,a combater o capital e sua lógica porque não tem viabilidade para a reforma agrária na lógica do capital. Essa éa questão que estáposta hoje,e que jáesteve posta no passado,mas agora com muito mais clareza.
Fazer a reforma agrária no Brasil com uma perspectiva de garantir a produção de alimentos saudáveis,uma produção que integre o ser humano e a natureza,que respeite a natureza,significa pensar esse tipo de produção para além da sociedade do capital.
Bom,fiz todo esse balanço mas e os sem terra concretamente,como se inserem nesse quadro? Esse éum problema que a gente dialoga permanentemente. Ou seja,fazer da luta pela terra um espaço de enfrentamento e de conquista,mas ao mesmo tempo de politização para além da conquista imediata. Porque não basta conquistar a terra,épreciso fazer com que haja o desenvolvimento de uma consciência política para entender que a luta pela terra e pela reforma agrária hoje adquire um caráter de classe muito mais forte,de luta contra o sistema capitalista.
Isso não éfácil,não éassim que tiramos uma linha na direção e vai para o conjunto do MST. Éum processo de entendimento,porque hámuitas ilusões. Hámuitas ilusões com o governo Lula,com as políticas sociais compensatórias,com certas negociações de dívidas,com algum tipo de crédito,com o melhoramento da casa. Que são questões importantes. Não estou negando a importância dessas conquistas como parte de um processo de resistência,mas épreciso avançar para além.

Vocêcitou o avanço da criminalização do movimento e da violência no campo,que segue crescendo em progressão geométrica. Especialmente tendo em vista a intensificação da campanha da grande mídia,seja contra as ocupações,colocando o movimento como um ‘bando de baderneiros’ou denunciando o MST como um movimento que ‘deu uma trégua ao governo e diminuiu o ritmo das ocupações’–o que écolocado também por outros setores –,como o MST tem buscado dialogar com os movimentos que permanecem se colocando no arco de aliados? E como tem sido enfrentado esse problema também na relação com o governo Lula?
Eles cumprem o papel deles. Estranharia se essa mídia começasse a defender outro tipo de proposta,ou a defender o movimento. A natureza da grande mídia éde classe e vinculada ao grande capital financeiro,portanto a toda a lógica do capital. Isso éinteressante inclusive do ponto de vista da população perceber de que lado estão os grandes meios de comunicação,que não existe essa balela de que os meios de comunicação estão acima ou são imparciais. Essa éa contradição real que vai inclusive nos possibilitar identificá-los como inimigos de classe,que éo que são. A intensificação [dos ataques aos movimentos sociais] tende a se agravar cada vez mais porque não tem perspectiva de solução da problemática social,nem da reforma agrária e nem da problemática urbana com esse tipo de política. Do ponto de vista geral o que se busca trabalhar éa história do ‘pão,circo e migalhas’. E para quem não se contenta com as políticas de compensação social,com o circo do crescimento montado pela grande empresa,tem o lado do Estado –exigido inclusive pela imprensa –que éo da coerção. O Estado não se sustenta somente através da coerção,épreciso haver “consensos”. E os consensos que são produzidos pelos grandes meios de comunicação,e não sópor eles –hoje existem mais de 270 mil ONGs e instituições privadas (Fundação Bradesco,Itaú,Ayrton Senna e outras) que atuam no sentido de gerar “consensos”na sociedade. Mas para os setores que não se adaptam a essa lógica,que não são cooptáveis,écacete. E éisso que eles estão pedindo para os movimentos sociais e para o MST. ‘Olha,esse movimento não estáse adaptando,então o que o Estado tem que fazer édescer o couro,criminalizar’. Isso não énovo,éhistórico. Eu lembro sempre do filme “Gladiador”,quando aquele espanhol estána cela e o negro diz uma coisa muito interessante:‘eles não vão te matar,primeiro eles precisam matar o teu nome para dois ’. Ou seja,isso láatrás. Assim écom o movimento social. A mídia cumpre o papel de criminalizar,destruir,estigmatizar para depois a repressão cumprir o seu papel. Esse éo ideal pra burguesia. Às vezes não dácerto e tem que vir pra cima,como em 68,quando se abriu o processo de mobilização social e o Estado veio pra cima e baixou o AI-5 e,pronto,acabou.
Ontem [a entrevista foi concedida no dia 29 de março],nossa turma foi pra frente da Rádio CBN láem Campinas,junto com a Abraço [Associação Brasileira de Rádios Comunitárias],porque todas as rádios de láestão sem concessão pública. Infelizmente,ninguém divulgou isso e mesmo a nossa turma teve muita dificuldade para divulgar. Aía gente pega eles na contradição,porque se fosse uma rádio popular,aía polícia ia entrar quebrando. Mas ontem estavam lápara proteger uma rádio sem concessão e a nossa turma foi pra porrada:‘por que vocês não entram quebrando lá?’. Então colocou uma contradição muito evidente.

E que mecanismos o MST vem usando ou discutindo para enfrentar esse processo?
Do ponto de vista da comunicação popular,eu penso duas coisas. Épreciso investir em novas formas de comunicação. Que seja uma rádio popular,mas que seja de fato populares porque às vezes o nome ‘rádio popular’escamoteia uma relação de uma ou duas pessoas e que não envolve a comunidade. A rádio pode ser um instrumento organizativo também,na medida em que as pessoas participem. Se sou eu que vou ládar a notícia pros outros,ela não vai servir como instrumento de organização. Os jornais,a Internet precisam ser potencializados,etc. Mas acho que épreciso potencializar a organização. Porque onde nós temos militantes que atuam dentro dos assentamentos,nos acampamentos,nas comunidades e periferias émuito fácil quebrar o discurso dos grandes meios de comunicação. Mas onde vocênão tem organização,obviamente os meios de comunicação são essa idiotização geral da população. E não são sóno Brasil,éuma realidade mundial. A turma lá[da Escola] de Frankfurt discute muito isso:a idéia da indústria cultural. Como aquele cara do filme “Forrest Gump”,ou seja,o idiota que corre sem objetivo nenhum,não vêos problemas. Éo idiota adaptado que éo sujeito feliz. E essa idéia da indústria cultural émuito forte na construção de idiotas adaptados que não precisam se preocupar com a problemática da humanidade,o que leva a um individualismo exacerbado.

Entre os principais desafios que vocêaponta estáo problema da reorganização dos movimentos sociais e,com ela,a questão fundamental da necessidade de unidade para um novo fortalecimento desses movimentos para enfrentar o capital.Como o MST avalia o processo de reorganização sindical e partidária que tem ocorrido no Brasil?
Primeiro,acho que estamos vivendo ainda um término de um ciclo que conduziu os movimentos sociais,desde o ascenso dos anos 70,por um caminho que aglutinou toda a esquerda em torno do projeto democrático popular. Esse ciclo não se acaba de uma hora para outra,estamos numa fase em que o novo ainda não surgiu e o velho ainda não desapareceu,de sair de sonhos e fazer reflexões. Mas háiniciativas novas de reaglutinação,de reorganização,etc. O MST obviamente aposta nessa perspectiva de reorganização tanto dos movimentos sociais como das estruturas políticas,dos instrumentos políticos. Agora,o MST vive um processo de metamorfose interna também,éparte do ciclo anterior pro novo ciclo. Mas acho que estamos caminhando para estabelecer alguns critérios políticos. Por exemplo,com quem buscar alianças estratégicas? Com quem continua desenvolvendo o conflito de classe,a luta de classe,quem enfrenta a lógica do estado burguês e do capital,desenvolve lutas. Isso éfundamental nesse momento,inclusive para não se perder. Dois,com organizações que tenham efetivamente base popular. Isso não significa não ter que dialogar com outros setores. Temos que dialogar com amplos setores. Agora,em termos de alianças prioritárias o nosso entendimento écom quem tem bases populares ou perspectiva de aglutinar bases efetivamente,porque em luta política o que conta também éforça organizada.
O que nós precisamos combater nesse período permanentemente? As políticas dos hegemonismos,do vanguardismo,do adesismo ao governo. E nós precisamos ajudar. Não no sentido de superioridade,mas nós temos que nos somar àconstrução de novos instrumentos organizativos. Uma das questões que estáposta é,por exemplo,a do proletariado agrícola. Como organizar? Como o MST se envolve nessa perspectiva que éparte do enfrentamento àlógica do capital no campo,e émuito mais complexo porque no campo vocêo químico que atua na produção do etanol. Então não ésóo proletariado agrícola,o cortador de cana,tem outros setores da classe trabalhadora. E mesmo o proletariado agrícola éitinerante,então a organização vai ter que ser itinerante. O cara começa aqui em São Paulo,desce pro Paraná,sobe pra Minas…E como vocêorganiza essa classe? São desafios que estão postos. Como fortalecer a luta,por exemplo,do MAB,o Movimento dos Atingidos por Barragens. Uma luta que aqui em São Paulo ganha uma dimensão muito interessante,contra o Grupo Votorantim,no Vale do Ribeira,que éa nossa Amazônia Paulista e estásendo privatizada. Como fortalecemos essa luta e nos somamos a essa luta. E assim como os setores da classe operária,o movimento sindical. Nós temos nos aproximado bastante da Intersindical,entendendo que éum processo de recuperação da luta sindical,inclusive da tomada de sindicatos com um viés de esquerda,diferente do que,por exemplo,a CUT se transformou. Com a Conlutas,temos relações e assim por diante. Isso significa que as prioridades políticas nas alianças precisam ser construídas por este campo,que estáefetivamente fazendo enfrentamento e luta. Entretanto,éum período em que a gente precisa dialogar com muitas forças. Dentro do PT também existem setores muito interessantes,como éo caso do PT de Limeira e do Pontal do Paranapanema,que éum aliado nosso lá. Então,épreciso estabelecer diálogos políticos com vários e amplos setores. Embora talvez não seja a aliança estratégica,mas o diálogo éfundamental. Os desafios na atualidade são:um,reconstruir a partir do que existe laços de solidariedade entre os movimentos sociais e de lutas comuns,porque o problema que nos atinge,também afeta os demais. Dois,buscar conjuntamente desenvolver um processo analítico,de estudos,da atualidade do capital,as mudanças que ocorreram,como estão as classes hoje,e estabelecer os desafios. Vinculado a isso,um terceiro,como organizar amplos setores da classe trabalhadora? Os precarizados,subempregados,terceirizados etc. Que nós estamos com dificuldade:o movimento sindical e o movimento popular também. Mas são amplas massas que poderíamos chamar genericamente da classe trabalhadora hoje,não sóno Brasil,mas no mundo. E,um quarto desafio écomo construir um projeto político comum,e talvez,desdobrando deste,um quinto aíque seria um plano de atuação comum pra fugir do imediatismo. Épreciso dar respostas imediatas,mas também olhar pro médio prazo. Então,como construir um plano que nos leve a ter uma centralidade política mais definida –o que eu quero dizer com isso éo seguinte:nós estamos em março e atuamos em tantas frentes indivualmente que a militância jáestácansada e a gente olha pra trás e parece que não fizemos nada. Então,qual éa centralidade política? Pra não atirar em todos os cantos ao mesmo tempo,reconhecer que temos fragilidades e somos poucos. Então,pra mim,um plano deve resolver essa questão de identificar qual éa centralidade política neste momento. Dentro deste plano,estabelecer metas de médio prazo. Isso qualquer empresa capitalista faz. Ou seja,estamos aqui e queremos chegar lá,para chegar láépreciso fazer o quê? Investir em formação de quadros,fazer o quêpara daqui a cinco anos num estágio tal que nos permita enfrentar essa lógica num outro patamar. Então eu acho que são desafios que estão postos na atualidade para o movimento social. O MST estádiscutindo isso,não temos toda a clareza,estou elencando alguns aspectos aqui que estão no debate interno,mas que apontam por este caminho em termos de alianças e construções organizativas para o próximo período.

E quais são para vocês as bases programáticas que permitiriam tanto a definição da centralidade política na atualidade quanto a vertebração de um projeto estratégico?
Aítambém háum debate intenso. Meu modo de ver,nesse debate que a gente estáfazendo internamente e com outros setores da esquerda,éque épreciso superar parte das idéias do projeto democrático popular que nortearam o nosso agir atéeste momento. Éo meu modo de ver,uma perspectiva muito pessoal. Precisamos superar a lógica de que o projeto estratégico éo que vêora um nacional-desenvolvimentismo,ora um projeto que inclui algumas medidas (um certo controle aos meios de comunicação). Um melhorismo. São reformas que a esquerda trabalhou como um projeto estratégico:um certo controle do capital financeiro,algum tipo de política de juros…Isso vocêatépode defender taticamente,mas não éum projeto estratégico,primeiro porque não vai atingir a essência do capital. Éuma espécie de reivindicações de uma classe média radicalizada e anti-monopolista. ‘Ah,o monopólio émuito complicado’. Bom,mas éda lógica do capital a exploração da classe,a acumulação de riquezas e a monopolização. Éo que eu disse antes:não tem ‘me dáum pouquinho do capitalismo’. Então,pra mim o projeto estratégico passa por essa superação da visão de que existe um capital ruim,que éo financeiro,e um capital bom,que éo produtivo. Háum entrelaçamento que inclusive o Lênin járesolveu isso quando escreveu o “Imperialismo:Fase Superior do Capitalismo” Mas ainda hámuitas ilusões na esquerda.
O projeto estratégico,no meu modo de ver,éa defesa do socialismo,e não tem uma etapa,uma lógica de que ‘então nós vamos engabelar a burguesia brasileira com um projeto de alguns controles e depois,na hora que acumular forças,damos o golpe neles’. Ninguém vai acreditar na gente. Não tem nenhum bom burguês defendendo um projeto nacional. Então,porque a gente tem que defender? O projeto estratégico da classe trabalhadora éa superação da ordem do capital. E isso mais que nunca precisa ser discutido não sócom o conjunto das nossas categorias,mas com o conjunto da sociedade. Porque a continuar a lógica do capital,talvez não tenhamos nem humanidade daqui a um tempo. A questão do socialismo ou barbárie estámais do que na atualidade. Ésocialismo ou barbárie elevada a potências,com sorte.
Por isso que o projeto socialista estáposto hoje. Não por uma lógica econômica da gente controlar as mercadorias,mas para a superação dessa lógica de produção,inclusive das mercadorias,da relação homem-natureza,por um outro projeto de novo tipo. Esse éo grande projeto da esquerda na atualidade,da esquerda nova. Um projeto que vai dialogar atécom setores de classe média,com quem não tem problema nenhum dialogar,que se a gente continuar plantando eucalipto do jeito que a gente planta estamos destruindo a natureza,se continuarmos usando agrotóxico estamos destruindo a humanidade. E que para o capital,produzir pão ou bomba éa mesma coisa. Então,pra mim,esse éo projeto central que a gente precisa clarear entre nós. Um projeto socialista. Não um socialismo da boca pra fora,mas um projeto real de fato. Esse o projeto estratégico,mas não éfácil. Porque a maioria das nossas organizações ainda estácom aquelas idéias do projeto democrático popular,de que aos poucos nós vamos enfrentando e tal. Eu não tenho problema com o fato da gente ter um programa de tipo reivindicatório,entretanto,épreciso ter clareza que nós não vamos voltar a ter estado de bem-estar social,que isso jáfoi,écoisa do passado. O programa reivindicatório deve apontar para além do possível –que esse Estado não vai cumprir,não tem como cumprir dentro da lógica do capital. Então,éum programa que a ponte,e aíestáo grande desafio,com as necessidades imediatas da população (que épreciso trazer senão a gente fica com um programa descolado e no ar) e ao mesmo tempo aponte para a superação dessa lógica. Essa éa conjugação que nós precisamos fazer,no meu modo de ver,um programa estratégico que coloque a defesa do socialismo abertamente com as necessidades do cotidiano que épreciso que a esquerda dialogue também.

O que coloca outro desafio que éa atualidade da revolução socialista na agenda da esquerda socialista e as formas de construir esse processo?
Com certeza. Eu não tenho nenhuma dúvida disso. Essa éuma das questões fundamentais. Agora,épreciso aprofundar também. Por exemplo,quem éo sujeito histórico hoje? Éo proletariado,mas quem éo proletariado na atualidade,como estáorganizado,onde estáe como organizá-lo –porque nós não estamos conseguindo atingi-lo. Não basta simplesmente,enquanto categoria teórica,definir que éo proletariado. Eu não tenho dúvida nenhuma que é,porque éo proletariado que produz tudo o que estáaí,então tem acesso e a possibilidade de entender a totalidade. Coisa que um burguês não tem. Agora,como organizá-lo dentro de um projeto que leve àsuperação disso. Outro tema:o que éo Estado na atualidade e efetivamente que papéis ele cumpre? Fala-se no ‘Estado mínimo’,mas lános Estados Unidos estão agora gastando bilhões pra salvar os bancos. Éo Estado que estáfazendo isso,com dinheiro público. Mas e o Estado,aípegando o Gramsci,no sentido ampliado? No Brasil vocêtem 270 mil ONGs e instituições esparramadas por tudo quanto écanto das periferias defendendo o status quo. Éo Estado em sentido ampliado que age e torna muito mais complexa a nossa realidade do que a situação russa de 1917. Tem uma nova etapa que a gente vive. E quem não conseguir interpretar esse momento e entender que houve mudanças,para que efetivamente estabeleçamos uma estratégia de acumular forças para a revolução,dificilmente vai avançar.
Eu particularmente defendo que uma organização política pra atualidade teria que conjugar essas duas coisas do ponto de vista do plano estratégico:um projeto socialista claramente definido com a realidade objetiva do nosso povo,as reivindicações. Do ponto de vista organizativo,uma organização,de fato,nas periferias,no território como espaço importante e não sónas categorias. Sem deixar de faze-lo nas categorias. Mas como organizar amplos setores que não estão organizados nas categorias,mas vivem uma problemática comum. Lána periferia,onde estáa empregada doméstica,o desempregado,o precarizado,que além dos problemas próprios do trabalho ainda enfrenta uma série de problemas de falta de políticas públicas. Então,uma organização política deve dialogar com as pessoas reais e objetivas que estão vivendo em algum lugar deste país. O proletariado,enquanto categoria teórica,étudo isso,mas vive em algum lugar,tem a sua subjetividade,come,dorme,faz sexo. E se a gente não dialoga com isso como éque faz revolução? A revolução não surge de uma hora pra outra. Épreciso construir essa organicidade a partir do local,dialogando com a problemática local,recuperando o local. Não pra cair numa lógica da parcialidade,pós-moderna,que não tem totalidade. Mas épreciso recuperar essa coisa do local para integrá-lo dentro da totalidade de uma organização que permita ir além daquilo que foi construído atéhoje. Acho que esses são os grandes desafios da esquerda no próximo período. Eu defendo a idéia da construção de um movimento político pela construção do poder popular. Atépra fugir,jáque nós entramos na lógica da revolução,daquela lógica do ‘assalto ao poder’como se ele estivesse num local e que épreciso assaltá-lo. Épreciso tomar o poder,não nenhuma dúvida disso. Sem derrotar o Estado burguês vai ser difícil implementar e construir uma outra lógica. Agora,inclusive para derrotar esse Estado burguês épreciso construir o poder popular.

Construir hegemonia?
Construir uma hegemonia,uma contra-hegemonia.

Vocêfalou da superação do projeto democrático popular e esse éum debate que tem surgido recorrentemente nas falas de vários companheiros do MST. O que,na sua opinião,se coloca como elemento fundamental para a falência desse projeto? E como estásendo esse debate para vocês no Movimento?
Algumas coisas eu jácomentei,que éa questão do socialismo e dos projetos de reformas para chegar atélá. Mas acho que o primeiro grande aspecto para a gente fazer a crítica correta ao projeto democrático popular étirar as lições dessa construção. Extrair as lições não écolocar essa construção no lixo porque todos nós fizemos parte dela e ela cumpriu um papel. Eu sempre digo que um projeto éfundamental. Porque eu tinha cinco lutando aqui,mas estavam vinculados a um projeto. Tinha 50 lutando lá,mas estavam vinculados a um projeto. E quando a gente perde essa perspectiva de um projeto a impressão que dáéque estamos sozinhos. Um projeto aglutina,tem essa capacidade de aglutinar pessoas dos mais variados tipos que lutam e que se sentem parte dessa construção,mesmo estando com pouca gente em determinado momento. Então,o primeiro aspecto éextrair as lições disso. Acho que éfundamental a gente fazer uma reflexão política,que não estáesgotada,sobre as lições das experiências de construção do socialismo no século 20. Para não cair numa lógica nem que aquilo não existiu,não era socialismo etc. E também para não cair na lógica de que temos que reeditar aquilo láporque também não serve pra nada. Temos que analisar quais foram os erros,qual era a realidade que se tinha naquele momento,para extrairmos o máximo de conhecimento possível.
Em segundo lugar,extrair as lições da nossa própria prática. O que deu errado? Para não cair numa lógica simplista de dizer apenas ‘a direção traiu’. Porque senão chegamos àconclusão de que as direções do mundo inteiro traíram. Isso émuito simples. Éatribuir todos os erros àcondução de uma direção. Hátraição? Háerros? Élógico que há. Mas não ésóisso. A burguesia também jogou nesse cenário. O projeto neoliberal não foi sóuma resposta ao socialismo,mas também àcrise do capitalismo,como um novo modelo de organizá-lo que foi vitorioso. Também tem o lado das mudanças econômicas que foram promovidas pelo projeto [neoliberal] no último período.
Em terceiro lugar,de lições ainda,équanto ao projeto. Essa idéia meio copiada dos processos revolucionários e das etapas. O etapismo. ‘Bom,agora não podemos dialogar sobre o socialismo porque temos que dialogar com a sociedade. Então temos que lutar por uma reforma agrária porque vai enfrentar o latifúndio e criar as condições,antiimperialista porque émuito importante,anti não sei quêporque émuito importante,mas socialismo deixa escamoteado porque na hora certa a gente coloca’.

O velho debate da correlação de forças.
É,correlação de forças. ‘Éuma etapa de construção mais ou menos,de acúmulo de forças’. Tem um acúmulo de forças que precisa ser questionado. O que éacúmulo de forças? E por fim,um debate político-organizativo e metodológico sobre qual a forma organizativa. Também no meu modo de ver,agora estou falando muito pessoalmente,as formas organizativas do século 20 deram resultados para aquela época,mas hoje jánão são suficientes para enfrentar a nossa complexa realidade mundial. Então épreciso dialogar sobre que novas formas organizativas estão postas.
Mas aívocêfala:‘então vocêfica sóna análise e o Marx játinha dito que a tarefa dos filósofos não ésóinterpretar,étransformar’. Mas a interpretação éparte do processo de transformação. Porque tu não pode separar,a partir da práxis,o que éanálise do que éa realidade objetiva. Senão não épráxis.
E o MST estáembrenhado nesse debate,muito forte. E eu estou muito otimista com o debate interno. Acho que o MST estátendo um processo de maturação. Talvez mais lento do que outros setores,mas um processo muito consistente. E acho que o próximo período vai ser de um salto de qualidade muito grande dentro do MST. E isso eu acho que vai ter uma capacidade de influenciar bastante a luta socialista no Brasil. Não que nós sejamos uma potência. Somos fracos também,uma organização pequena. Entretanto,acho que ela poderácumprir um papel importante no próximo período. Estou muito otimista com esse debate dentro do MST,que estácaminhando por aí,numa reflexão interna que vai e volta,mas uma reflexão muito produtiva que acho que vai desembocar num salto de qualidade muito grande. Não inexoravelmente,mas porque tem uma vontade política sendo construída e uma intencionalidade política para fazer esse debate. Sem simplismo,sem receita. Entendendo que éum processo,que vai ter inúmeras contradições,mas que caminha para clarear melhor isso tudo e tentar extrair todas as lições possíveis.
Agora,se vocême perguntar se na esquerda háisso? Eu acho que a esquerda ainda estámuito impregnada da possibilidade…Bom,o Lula de fato éruim,o PT,e se nós elegermos uma outra figura vai resolver uma ou outra parte. Eu não acredito nisso. Acho que são processos. O papel do indivíduo na história émuito importante,não tenho nenhuma dúvida. Mas,como dizia Rosa Luxemburgo,vale mais um erro cometido pela experiência concreta na luta de massas do que o melhor acerto do melhor comitêcentral ou do melhor indivíduo. E não vai resolver eleger um. Pode botar o ZéMaria de presidente do Brasil que se não tiver uma estrutura organizativa de novo tipo também não vai. O Hamas estáaína Palestina,um exemplo muito interessante.
Muitos dizem:‘ah,precisamos do nosso Chávez’. O Brasil éo Brasil e a Venezuela éuma outra história. Seria bom se tivéssemos um Chávez aqui também,muito melhor que o Lula. Entretanto,o processo da revolução não vai ser decidido por causa de uma pessoa,éum processo. Énisso que eu acredito. Porque inclusive para [a revolução] se sustentar tem que haver esse processo.

Essa análise coloca mais desafio para a esquerda de conjunto,que éa tarefa da formação. E isso foi algo que se perdeu também nos últimos 20 anos para a maior parte da esquerda.
Com certeza,mesmo a esquerda crítica na atualidade não faz formação. Eu brinco com os sindicalistas,sou amigo de um monte de gente do PSTU,da Intersindical,e sempre pergunto:o que vocêtálendo agora? Porque éum “conjunturismo”(o jornal,uma coisinhas),agora estudar mesmo?? Pode pegar na mais esquerda que tem aí. Quais são os militantes que estão estudando,se dedicando a estudar. E mais,quais são as que estão investindo pra que os seus militantes de fato estudem? Isso éum problema objetivo. Quer ver como vai ser o futuro? Olha o presente. E isso me desanima,de certa forma. Quem estáinvestindo isso? Ou nós vamos achar que a história estáno piloto automático e que uma hora dessas as massas vão se levantar e nós temos que estar na frente para conduzi-la a bom termo. Qual éa militância,que vai dirigir os processo ali na frente,que nós estamos construindo hoje.
Eu não tenho nenhuma dúvida que em processos de crise,como este,o processo de formação de quadros émais lento. Mas se vocênão investe nele,vai ser pior ainda. Porque mesmo havendo uma crise social,a possibilidade de uma crise grave,estilo 29. Quais seriam os cenários. Precisamos conversar mais sobre isso. Mas acho que ninguém estáfazendo isso também. Eu sempre brinco com a nossa turma de que,na hora em que vier uma crise grave mesmo,a turma vai pra frente da Globo pra ver o que estáocorrendo. Porque a esquerda perdeu a capacidade de se juntar,tomar decisões,se preparar antecipadamente.
A possibilidade fascistizante éreal. O discurso neofascista hoje no mundo todo émuito grande. A ‘guetização’–nós falamos antes da criminalização dos movimentos sociais,mas não são sóos movimentos sociais que estão sendo criminalizados,éa pobreza em geral que estásendo criminalizada. Mas tem a possibilidade de uma revolta popular. Falta alimento,falta isso,aquilo.. hã,a turma desce e vai pegar as Casas Bahia na frente,não tem dúvida. E pra onde vocêconduz um processo desses?
E se nós não estamos preparando os quadros,com inserção no meio da classe,inclusive se acontecesse essa revolta popular,qual o preparo que a gente teria? Isso me preocupa muito. E isso,poucos setores estão preocupados em investir.
Pode ser que o MST tenha um monte de dificuldades e debilidades,mas nesse capítulo pelo menos nós conseguimos definir como uma prioridade. Não épra jogar confete,mas hoje o MST estáajudando a criar uma escola de formação da Via Campesina na África,em Maputo estásendo criada uma escola,em Moçambique,de formação política e ideológica. E o MST estáajudando nessa tarefa:ampliar a Via Campesina,dar conteúdo ideológico,com todas as contradições que existem. Tem os europeus,nós,temos um monte de diferenças,mas éuma construção que estásendo feita com um objetivo que éa articulação internacional. Nunca esteve tão na ordem do dia a frase que termina o Manifesto Comunista [“Proletários de todo o mundo,uni-vos!”]. Porque atédo ponto de vista econômico épreciso articulação internacional. Se vocêfizer uma greve aqui,o capital aplica o banco de horas lána Coréia do Sul,bota eles a trabalhar mais. Quando arrebentar a greve aqui,queima as horas láe tira o couro dos daqui. Então,ou háuma articulação internacional para combater a lógica do capital,que éa mesma em essência no mundo todo,mais grave um pouco nos países da periferia,ou vocêse articula internacionalmente ou não vamos derrotar o capitalismo. Isso não significa que agora vamos ficar viajando o mundo,porque se não construirmos aqui a resistência não tem como nos integrarmos. O local,de novo,émuito importante –o local,país,e não o nacionalismo barato,como alguns acham,mas integrado internacionalmente.

Vocêcitou os setores que querem uma saída para o Brasil àla Chávez ou Morales. Qual a sua avaliação sobre a realidade da América Latina e as perspectivas que estão colocadas?
A América Latina agora passa efetivamente a entrar no cenário mundial e nas análises,inclusive dos maiores intelectuais. Eu estava lendo o Therry Eagleton,que éum intelectual inglês,e ele coloca a América Latina como parte dessa construção nova que pode ocorrer como um enfrentamento àlógica do capital,do império. Vários outros intelectuais colocam o Brasil,que émuito citado. Coisa que no passado ninguém porque com o eurocentrismo,parece que o mundo era a Europa e o resto éo resto. Faz a revolução láe depois o resto cai,né? E muitos colocam essa coisa dos novos sujeitos que apareceram na América Latina,o que enriquece o marxismo,ou pelo menos atualiza o marxismo. Com,por exemplo,colocar os índios,sobre não tinha nenhuma categoria analítica que os colocasse como possíveis sujeitos de ações como fizeram na Bolívia,Equador,no México,e assim por diante. Acho que a América Latina éportadora do que tem de novo na realidade. Épequeno isso. Eu não tenho ilusões de que jáestejamos entrando numa fase pré-revolucionária –quer dizer,numa fase pré-revolucionária nós estamos porque antes da revolução ésempre pré(risos) –,mas não naquela fase decisiva pro processo revolucionário. Mas acho que a construção da experiência na Venezuela precisa ser acompanhada. Não para repetir,trazer a mesma experiência pra cá. Mas ela traz ingredientes novos,muito interessantes,aos quais a gente precisa estar atento. Por exemplo,a eleição de um presidente da república que passa a cumprir um papel de enfrentamento ao imperialismo e a possibilidade de,a partir disso,organizar no território nacional forças e movimentos sociais,etc,para além de um projeto puramente nacional. Tanto assim que o Chávez busca uma aliança com outros setores,atépor uma questão de sobrevivência,né? Primeiro busca uma aliança muito próxima com Cuba,depois constrói alianças com outros setores,apóia a eleição no Equador,a disputa política no Peru (que quase ganha) a esquerda,vamos dizer assim,progressista. A experiência boliviana,que émuito diferente da venezuelana,primeiro porque éuma experiência vinda dos movimentos sociais,do cocaleiros,mineiros,etc,que se juntam,formam um partido eleitoral,vão às eleições e ganham as eleições. Háquem critique esse processo,chamando-o de excessivo peso ainda da velha esquerda ao Estado,ou seja,se junta,vai pro governo e,a partir do governo,começa a tomar medidas pra sociedade o que leva a um processo de burocratização e centralização da tomada de decisões. Que me parece muito interessante a crítica também,mas enquanto projeto de enfrentamento ao capital internacional,ao imperialismo,não tenho nenhuma dúvida de que devemos apoiar:o projeto de nacionalização dos recursos naturais,etc. O caso do Equador,os casos do México –não sódo levante zapatista,mas dos professores em Oaxaca. Enfim,são vários levantes populares que estão ocorrendo na América Latina.
Eu não tenho nenhuma dúvida que,dentro dessa articulação internacional,a construção de alianças na América Latina deve ser prioridade zero.
No entanto,acho que a situação brasileira écompletamente diferente da maioria dos países latino-americanos,émuito mais complexa. E não dápra importar um modelo. Eu brinco sempre que essa foi a tentativa do comitêcentral russo para dirigir a revolução chinesa. E eles tentaram um monte de vezes e não deu certo. Deu certo quando eles analisaram a realidade chinesa com óculos chineses,e não com óculos russos. Aífizeram uma análise real das condições e empreenderam uma guerra popular prolongada,o exército popular,e fizeram uma revolução –que hoje éuma contra-revolução. Abrindo um parêntese,para onde vai a China? Éuma grande incógnita. Pode ir pra uma alternativa nacionalista ao estilo do fascismo,ou também pode haver um processo de revolta. A maior classe trabalhadora,proletária,do mundo estálá. E analisar a China dentro da realidade internacional émuito importante.
E o Brasil precisa analisar a sua realidade a partir da sua experiência histórica e das condições que temos aqui. Mas não tenho nenhuma dúvida de que devemos nos inserir neste contexto da América Latina,porque se háalgum continente que hoje representa coisas novas,que não são receitas a serem aplicadas pra todo mundo,mas são elementos novos que precisam ser acompanhados,analisados,extraídos:éo continente latino-americano.

Voltando para a ação do MST. Em abril vêm as jornadas do “Abril Vermelho”. E depois,quais as perspectivas da luta do Movimento Sem-Terra neste ano de 2008?
Acho que esse ano termina mais cedo,em função inclusive da disputa eleitoral. Émeio natural. Uma parte da esquerda vai fazer essa disputa das eleições,no plano tático,e tem que fazer mesmo. Nós jáiniciamos este ano com várias mobilizações. Éo caso do 8 de março,agora em março também teve ações muito interessantes,que dão um salto de qualidade. Aquele salto de qualidade que eu falei no começo agora as próprias ações começaram a mostrar. As mulheres aqui em São Paulo,no Rio Grande do Sul,o caso da Vale em Minas Gerais…Obviamente,isso vai ter conseqüências. A jornada deve ocorrer. Não acho que seja tão grande a jornada de Abril,em função atédo momento. Estádifícil mobilizar,fazer grandes ocupações,mas vai ocorrer,de toda forma uma boa jornada. Em maio,estamos juntos com os vários movimentos na construção do 1ºde maio. E a Via Campesina,em junho,também vai fazer uma grande jornada –de 12 a 14 de junho –contra as transnacionais e o agronegócio.
No segundo semestre nós vamos fazer vários seminários,reuniões. A idéia éaqui em São Paulo também fazer junto com os outros movimentos. Játer esse processo de análise e reflexões comuns. Acho que vai ser um ano muito interessante pra isso. O primeiro semestre com grandes lutas e,no segundo semestre vai ter lutas também,mas a gente quer dedicar bastante para a formação,pros seminários e as conversas com os parceiros e aliados nessa perspectiva de tentar entender e de ir,obviamente,construindo esse projeto.
Acho que um dos desafios éuma experiência interessante que estásendo construída no Rio de Janeiro,de juntar todos os movimentos sociais. Eles juntaram cerca de 80,90 movimentos sociais numa plenária,tentando fazer uma análise comum e estabelecer uma agenda comum de luta. Nós vamos propor agora pra cá. E,de repente,começar aqui em São Paulo,como o Rio jácomeçou,a chamar outros movimentos:o MTST,o MAB,a (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo),outros movimentos,para nós fazermos uma análise de conjuntura e ao mesmo estabelecermos que tipo de calendários comuns nós podemos desenvolver. Sem forçar a barra. Chegar e dialogar,propor. Mais para cada um dando a sua opinião,com muita liberdade. E,se for possível,construir essa unidade dos movimentos sociais. E acho que isso também estáamadurecendo. Se tem uma outra coisa positiva éestáamadurecendo,pros próprios movimentos sociais,a necessidade de se juntar com outros setores. Todo mundo estávendo que individualmente vai ser arrebentado. Então éuma necessidade objetiva,inclusive de se sustentar. E isso pode gerar um processo de construção muito interessante pro período que vem.
Um segundo capítulo para o qual devemos ficar muito atentos éa crise internacional. O movimento que a China estáfazendo,a crise nos Estados Unidos,éalgo que nós temos que acompanhar de perto,inclusive na perspectiva desses movimentos que se juntem darem este acompanhamento. Porque no caso de haver uma crise de todo o sistema obviamente os impactos serão muito grandes aqui no Brasil também,e isso vai ter conseqüências. Eu acho que efetivamente essa crise égrave,todos os indícios apontam para uma gravidade. Mas talvez as conseqüências para o Brasil não venham agora,nem e 2009,possam vir em 2010. E isso implica numa série de coisas para as quais temos que nos preparar agora.

Eu sou muito pessimista com relação àrealidade objetiva em que vivemos (movimentos fragmentados,enfraquecidos,perdemos alguns aliados,poucas lutas sociais),mas sou muito otimista quanto às perspectivas. Porque eu acho que em nenhum outro momento da história nós tivemos tantos elementos para serem colocados na mesa com muito mais clareza,lições de processo com muito mais clareza,e perspectiva –com muito mais clareza hoje –de enfrentar não sóas lutas corporativas,mas a lógica do capital,como forma inclusive de garantir a sobrevivência da humanidade por muito mais tempo. Esse éo lado positivo e também desafiante. Isso pode engendrar um processo de articulação política que leve pelo menos a fortalecer uma contraposição àlógica hegemônica dominante. Ainda não éa revolução,mas com certeza são resistências muito importantes dentro do processo,que precisam ser construídas para que no futuro a gente,efetivamente,tenha forças para fazer a revolução. Então,pra mim,esse éo quadro:contraditório,entretanto muito desafiante.

Neste 13 de maio:Vamos denunciar o racismo e reescrever a verdadeira história do Brasil

Postado:Psol Carapicuiba

Nestes 121 anos que nos separam da farsa da “abolição”da escravatura no Brasil,os negros carregam dupla herança de exploração e exclusão:enquanto pobres,submetidos àmarginalização imposta pelo capitalismo,comum àimensa maioria da população brasileira;enquanto negros,ainda hoje sofrem com as conseqüências do racismo,embora escancarado,não assumido.

A discriminação se dános variados setores da sociedade,desde a falta de acesso ao mercado de trabalho (e àsalários compatíveis com brancos em mesma função),àeducação,bem como e sobretudo àausência nas instâncias de poder e decisão,quer nos setores políticos,sociais ou religiosos.

Do ponto de vista teológico,a escravidão foi justificada a partir do relato bíblico,(gênesis. 9,18-27),conforme consta do livro (Racismo,Preconceito e Intolerância de Edson Borges,Carlos Alberto Medeiros,Jaques D´Adesky,pág,15,editora Atual,terceira edição.).”Em decorrência da praga rogada por Noé-Maldito seja Canaã,filho de Cam-,a história registrou diversas leituras preconceituosas daquele mito bíblico,como a que relata que,desde então,a vontade divina repartiu o mundo entre os filhos de Jafé(Europeus),Sem (Semitas) e Cam (africanos)”. ”O pecado original dos negros e a maldição de Cam são temas abordados também pelo professor de literatura brasileira Alfredo Bosi,em um brilhante trabalho intitulado Sob o signo de Cam,no qual analisa os dois mais belos poemas de Castro Alves,Vozes d´África e o navio negreiro,concluindo que esses velhos mitos bíblicos serviram ao novo pensamento mercantil para justificar o tráfico negreiro”. O mesmo livro faz referência a publicação de Edílson Marques da Solva que em seu livro “negritude e fé,afirma que uma teologia de caráter racista esteve na base de todo o processo de colonização do Brasil”.

A história oficial,sob a ótica dos brancos-colonizadores,impregnou na sociedade por mais de quatro séculos a visão preconceituosa que associa o negro àescravidão,àimprodutividade e àinferioridade. No entanto,o resgate histórico das experiências de resistência da raça negra e de outros segmentos da maioria oprimida éuma prática recente e que nos remete a heróis como Zumbi dos Palmares e sua luta de libertação.

O Quilombo de Palmares foi uma ousada aventura libertária que resistiu quase 70 anos às investidas do governo colonial. Láviveram em torno de 20 mil escravos que lutaram por sua liberdade,organizando um novo modelo de sociedade. A história do Brasil na leitura e perspectiva do negro aponta o marco da verdadeira Consciência Negra como sendo o Dia 20 de Novembro,data em que assassinaram Zumbi dos Palmares,no ano de 1695.

Se a exploração e o massacre marcaram e marcam atéhoje a história dos negros no Brasil,também éverdade que a utopia dos quilombos alimenta a fome de liberdade e de identificação desta raça,que ainda hoje,apesar de discriminada e violada em seus direitos básicos e em sua dignidade,resiste com sua cultura e seu poder de resistência a toda e qualquer violência perpetrada pelos atuais senhores da Casa Grande.

Ao contrário de representar uma reparação às atrocidades e desrespeito com a raça negra,(a abolição de 13 de maio de 1888 foi uma saída de mercado. A proibição do tráfico negreiro (lei Eusébio de Queiroz,1850) foi motiva por pressões externas de países onde o capitalismo jáavançava em sua fase industrial,processo este liderado pela Inglaterra. Longe de ser um gesto humanitário da Senhora Isabel,este ato significou a mudança nas relações econômicas e no padrão de consumo. As transformações econômicas,porém não significaram mudanças na qualidade de vida da população negra. Da escravidão abjeta e desumana,o povo negro foi atirado no abandonando passando a perambular em busca de abrigo e alimento,muitas vezes doente e moribundo,sem amparo dos senhores de engenho e do Estado,tanto Monárquico quanto o Estado Positivista “Ordem e Progresso”Republicano.

A importação de escravos transformou-se em contrabando,elevando o preço do escravo e a sua utilização enquanto mão de obra anti-econômica. Assim,paralelamente o governo monárquico brasileiro passou a incentivar a importação de trabalhadores europeus.

Desta forma se dáa transição do trabalho escravo negro para o trabalho “livre”. Por não atenderem mais as necessidades do mercado,milhões de trabalhadores negros se viram abandonados,sem direitos,sem trabalho,sem casa,sem família,destituídos de lugar social.

Como bem expressa o texto produzido pelo Fórum Nacional dos Trabalhadores Negros:“Saímos,então,das mãos dos sinhozinhos e caímos na marginalidade por falta de trabalho remunerado e casa para morar. Este éum dos motivos que neste dia 13 de maio não podemos comemorar a libertação. Pelo contrário,hoje o preconceito racial estámais vivo do que nunca”.

Com a palavra os trabalhadores negros:“Nós negros somos discriminados e marginalizados,nossas crianças são vítimas da violência. Cerca de 70% dos assassinatos de menores no Brasil na faixa de 13 a 17 anos são de negros. A maioria énascida em favela e pertencem a famílias com uma renda inferior a um salário mínimo “. (Documento da Anistia Internacional).

As mulheres negras estão sendo esterilizadas,sem ao menos ter o direito de escolha…A maior ocorrência tem sido nas regiões Norte e Nordeste…Somos discriminados no local de trabalho. Os jornais trazem anúncio solicitando pessoas de “boa aparência”–racismo velado –para contratação. Na verdade hádiferenças salariais. Tem negro que faz o mesmo tipo de trabalho de um branco e recebe salário menor –os brancos representam 57% da força de trabalho e ficam com 72% do rendimento,enquanto os negros e pardos representam 40% da força de trabalho,ficando apenas com 25% do rendimento –Os negros são alvo de preconceito também pela polícia. Basta um negro ficar na rua ànoite e não ter registro em carteira para ser considerado marginal –Pesquisa da Datafolha,realizada com 1080 entrevistados,dois dias após a exibição do vídeo pela TV,onde policiais militares de Diadema apareceram torturando e extorquindo civis e dando o tiro que matou o mecânico Mário JoséJosino,parado durante a blitz na favela Naval,mostrou que os negros são abordados com maior freqüência pela polícia,recebem mais insultos e mais agressões físicas que os brancos ou qualquer outro grupo étnico. Entre os entrevistados da raça negra,quase a metade (48%) jáfoi revistada alguma vez. Desses,21% jáforam ofendidos verbalmente e 14%. agredidos fisicamente. Enquanto entre os brancos,34% jápassaram por uma revista policial,17% ouviram ofensas e 6% jáforam agredidos,ou seja,menos da metade da incidência com negros.

Contra fatos não háargumento.

O racismo existe e deve ser exterminado da sociedade.

- Contra a discriminação racial no mercado de trabalho;

- Contra a discriminação da mulher;

- Contra a violência policial sobre pobres e negros;

- Pela extinção dos conteúdos discriminatórios e xenófobos nos livros e materiais didáticos;

- Pela inclusão de fato da História da África no currículo escolar;

- Em defesa das políticas de reparações históricas e a instituição das cotas para negros nas faculdades públicas,autarquias e particulares .

- Pelo feriado de Nacional de 20 de novembro.

- Pela implantação da capoeira na grade curricular das escolas públicas municipais e estaduais.

- Pela organização do “Museu da Raça Negra”nas cidades Brasileiras.

- Pela implantação nos municípios de Secretarias de Gênero etnia,para encaminhar as demandas gerais e específicas.

Aldo Santos éex-vereador de São Bernardo do Campo,membro do Diretório Nacional e presidente do PSOL em São Bernardo do Campo.

Um ‘novo PIB’em gestação

Especialistas buscam uma reformulação da medida de riqueza que leve em conta ambiente e qualidade de vida


SÃO PAULO –Após anos de críticas àforma usada para medir o Produto Interno Bruto (PIB),organismos internacionais devem receber no próximo mês um relatório com sugestões para mudar os parâmetros de cálculo do desempenho econômico dos países. Em época de crise financeira e desaceleração da economia no mundo,a proposta éelaborar um indicador que,além de somar a atividade econômica,considere as condições de vida da população e índices relacionados a sustentabilidade e preservação de recursos naturais.
"A crise colocou em xeque muitos conceitos,entre eles o de que crescimento econômico se traduz em bem-estar",avalia Ricardo Young,presidente do Instituto Ethos.
Uma das ideias de revisão do PIB estáem andamento desde meados do ano passado. O presidente da França,Nicolas Sarkozy,encomendou a um grupo de 27 renomados especialistas,entre eles os ganhadores do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz (2001) e Amartya Sen (1998),uma reforma da métrica. Matemáticos,estatísticos,economistas ambientais e estudiosos da pobreza reforçam o time,que ficou conhecido como Comissão Stiglitz-Sen.
A comissão trabalha em três frentes. Uma delas busca atualizar o PIB padrão,de modo que a medida se torne mais abrangente e mais relevante para os formuladores de políticas públicas. Outra tenta incorporar novas medidas de sustentabilidade ambiental aos dados e,assim,mensurar o impacto da economia sobre os ecossistemas. Por último,o grupo trabalha na criação de novos indicadores para avaliar qualidade de vida e bem-estar.
As críticas ao PIB remontam àdécada de 1960 e,pela primeira vez desde o pós-guerra,ganha força a proposta de medir o progresso econômico em novas bases. O relatório que estásendo preparado deve ser entregue àOrganização das Nações Unidas (ONU) e outros organismos internacionais,como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI).
"Vai ser uma nova forma de fazer a contabilidade das nações,que permitiráque os resultados do desempenho econômico sejam medidos de uma maneira melhor que a atual. O PIB que conhecemos éprecário",afirma JoséEli da Veiga,professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e autor do livro Desenvolvimento Sustentável –O Desafio do Século XXI.
Modelo Ultrapassado
As críticas ao PIB como medida do crescimento econômico existem desde que ele passou a ser amplamente utilizado pelos países,no Pós-Guerra. Um de seus formuladores,o economista Simon Kuznets,chegou a admitir as limitações da métrica na década de 1970.
Em 2004,um encontro internacional de estatísticos organizado pela OCDE lançou as bases para que o movimento anti-PIB,hoje conhecido como Beyound GDP (Além do PIB,em inglês) se disseminasse pelo mundo e culminasse no pedido de Sarkozy aos economistas.
"A discussão éirreversível e palpável porque épreciso encontrar instrumentos mais eficientes para medir o progresso e o nível de bem-estar dos países,que levem em consideração temas urgentes como saúde,pobreza,mudanças climáticas e a dilapidação dos recursos naturais",avalia Young,do Instituto Ethos.
A economista americana Hazel Henderson levantou críticas ao modelo do PIB hápelo menos 20 anos. Segundo ela,o critério da riqueza per capita disfarça as desigualdades vigentes –pois a métrica do PIB apenas soma o resultado da atividade econômica sem levar em conta as chamadas externalidades –os custos social e ambiental envolvidos na produção da riqueza por um país.
Um exemplo claro do que fala Henderson éo caso das grandes catástrofes e desastres ambientais:hoje,eles acabam sendo positivos para o crescimento do PIB,porque a reconstrução das regiões afetadas por tais eventos extremos movimenta o setor de serviços e,consequentemente,gera empregos.
Outro exemplo éa natureza do negócio. Uma mineradora pode contribuir para o PIB com a extração de minério,mesmo às custas da degradação dos recursos naturais,o que pode comprometer para sempre uma cidade e as pessoas que vivem ali. Além disso,o PIB sócontabiliza o fluxo de mercadorias,e não os estoques de bens jáproduzidos.
Além da França,o Reino Unido também reforçou o coro sobre a necessidade de uma nova métrica. No entanto,ainda deve levar algum tempo para que esses novos parâmetros sejam assimilados e adotados como padrão. "Émuito difícil prever. A ONU teráde assumir a elaboração dos indicadores. A expectativa éde que o relatório da Comissão Stiglitz-Sen desencadeie um processo nas organizações internacionais",explica Veiga. (Andrea Vialli,de O Estado de S. Paulo)
NOTA DO IZB: Seráque o PIB vai mudar mesmo? De que adianta ‘recomendar’este tipo de mudança para órgãos como o FMI e o Banco Mundial,instituições retrógradas e neo-liberais? Se mudar levando em conta o meio ambiente,éinteressante. Atualmente o PIB ébasicamente a soma da ‘riqueza’gerada pela produção industrial,comércio e serviços que,na grande maioria das vezes significa degradação e destruição ambiental em troca da fabricação de produtos supérfluos. Jádisseram que o atual modelo de ‘desenvolvimento’necessitaria de três planetas Terra em recursos naturais pra se sustentar por mais uns 100 anos…E você,ainda estáinteressado em colocar mais filho neste mundo,mantendo a ordem capitalista???

Breve biografia de Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa,mais conhecido como Guimarães Rosa (Cordisburgo,27 de junho de 1908 —Rio de Janeiro,19 de novembro de 1967) foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata.
Os contos e romances escritos por João Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se,sobretudo,pelas inovações de linguagem,sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso,somado a sua erudição,permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares,invenções e intervenções semânticas e sintáticas.
Guimarães Rosa foi o primeiro dos sete filhos de Florduardo Pinto Rosa ("Fulô") e de D. Francisca Guimarães Rosa ("Chiquitinha").
Autodidata,começou ainda criança a estudar diversos idiomas,iniciando pelo francês quando ainda não tinha 7 anos,como se pode verificar neste trecho de entrevista concedido a uma prima,anos mais tarde:
“Eu falo:português,alemão,francês,inglês,espanhol,italiano,esperanto,um pouco de russo;leio:sueco,holandês,latim e grego (mas com o dicionário agarrado);entendo alguns dialetos alemães;estudei a gramática:do húngaro,do árabe,do sânscrito,do lituano,do polonês,do tupi,do hebraico,do japonês,do checo,do finlandês,do dinamarquês;bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito àcompreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente,porém,estudando-se por divertimento,gosto e distração”.
Ainda pequeno,mudou-se para a casa dos avós,em Belo Horizonte,onde concluiu o curso primário. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio,em São João del-Rei,mas logo retornou a Belo Horizonte,onde se formou. Em 1925,matriculou-se na então "Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais",com apenas 16 anos.
Em 27 de junho de 1930,casou-se com Lígia Cabral Penna,de apenas 16 anos,com quem teve duas filhas:Vilma e Agnes. Ainda nesse ano se formou e passou a exercer a profissão em Itaguara,então município de Itaúna (MG),onde permaneceu cerca de dois anos. Foi nessa localidade que passou a ter contato com os elementos do sertão que serviram de referência e inspiração a sua obra.
De volta de Itaguara,Guimarães Rosa serviu como médico voluntário da Força Pública (atual Polícia Militar),durante a Revolução Constitucionalista de 1932,indo para o setor do Túnel em Passa-Quatro (MG) onde tomou contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek,naquela ocasião o médico-chefe do Hospital de Sangue. Posteriormente,entrou para o quadro da Força Pública,por concurso. Em 1933,foi para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9ºBatalhão de Infantaria. Aprovado em concurso para o Itamaraty,passou alguns anos de sua vida como diplomata na Europa e na América Latina.
No início da carreira diplomática,exerceu,como primeira função no exterior,o cargo de Cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo,na Alemanha,de 1938 a 1942. No contexto da Segunda Guerra Mundial,para auxiliar judeus a fugir para o Brasil,emitiu,ao lado da segunda esposa,Aracy de Carvalho Guimarães Rosa,mais vistos do que as cotas legalmente estipuladas,tendo,por essa ação humanitária e de coragem,ganhado,no pós-Guerra,o reconhecimento do Estado de Israel. Aracy éa única mulher homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações,no Museu do Holocausto,em Israel.
No Brasil,em sua segunda candidatura para a Academia Brasileira de Letras,foi eleito por unanimidade (1963). Temendo ser tomado por uma forte emoção,adiou a cerimônia de posse por quatro anos. Em seu discurso,quando enfim decidiu assumir a cadeira da Academia,em 1967,chegou a afirmar sob tom sarcástico:"…a gente morre épara provar que viveu."[1] Faleceu três dias mais tarde na cidade do Rio de Janeiro,em 19 de novembro. Se o laudo médico atestou um infarto,sua morte permanece um mistério inexplicável,sobretudo por estar previamente anunciada em sua obra mais marcante —Grande Sertão:Veredas —,romance qualificado por Rosa como uma "autobiografia irracional". Talvez a explicação esteja na própria travessia simbólica do rio e do sertão de Riobaldo,ou no amor inexplicável por Diadorim,maravilhoso demais e terrível demais,beleza e medo ao mesmo tempo,ser e não-ser,verdade e mentira.
Diadorim-Mediador,a alma que se perde na consumação do pacto com a linguagem e a poesia. Riobaldo (Rosa-IO-bardo),o poeta-guerreiro que,em estado de transe,dáàluz obras-primas da literatura universal. Biografia e ficção se fundem e se confundem nas páginas enigmáticas de João Guimarães Rosa,desaparecido prematuramente aos 59 anos de idade,no ápice de sua carreira literária e diplomática.
Contexto literário
Realismo mágico,regionalismo,liberdades e invenções lingüísticas e neologismos são algumas das características fundamentais da literatura de Guimarães Rosa,mas não as suficientes para explicar seu sucesso. Guimarães Rosa prova o quão importante éter a linguagem a serviço da temática,e vice-versa,uma potencializando a outra. Nesse sentido,o escritor mineiro inaugura uma metamorfose no regionalismo brasileiro que o traria de novo ao centro da ficção brasileira.
Guimarães Rosa também seria incluído no cânone internacional a partir do boom da literatura latino-americano pós-1950. O romance entrara em decadência nos Estados Unidos (onde àépoca era vitrine da própria arte literária,concorrendo apenas com o cinema),especialmente após a morte de Céline (1951),Thomas Mann (1955),Albert Camus (1960),Hemingway (1961),Faulkner (1962). E,a partir de Cem anos de solidão (1967),do colombiano Gabriel García Márquez,a ficção latino-americana torna-se a representação de uma vitalidade artística e de uma capacidade de invenção ficcional que pareciam,naquele momento,perdidas para sempre. São desse período os imortais Vargas Llosa (Peru),Carlos Fuentes (México),Julio Cortázar (Argentina),Juan Rulfo (México),Alejo Carpentier (Cuba) e mais recentemente Angel Ramá(Uruguai).
(Extraído de Wikipédia,a Enciclopédia Livre,em http://pt.wikipedia.org/wiki/Guimar%C3%A3es_Rosa)

"A Revolução Venezuelana"

Título:A Revolução Venezuelana

Autor –Gilberto Maringoni éjornalista,doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2006) e graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo pela mesma universidade. Atualmente éprofessor de jornalismo na Faculdade de Comunicação Cásper Libero,em São Paulo Épesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

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