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By Erik Rasmussen

O pelourinho de Salvador que não está nos cartões postais

Por Eduardo Sá, 11.11.2009

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Crianças soltando pipa em frente a Casa de Jorge Amado, no Centro

Histórico do Pelourinho. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

A Bahia, sobretudo Salvador, geralmente é apresentada como um lugar de ritmo, comidas típicas, música, paisagens e alegria, enfim. Mas num breve passeio pelo Centro Histórico do Pelourinho, mundialmente conhecido, no coração da capital baiana, pode-se ver uma realidade que não está nos cartões postais. A própria estrada Rio-Bahia já denuncia, após os vastos campos de eucalipto das celuloses da Aracruz, no Espírito Santo: primeiro as casas de pau a pique na beira da estrada, em contraste com os latifúndios, e chegando a Salvador se é recepcionado com fábricas e favelas; eis a primeira impressão.

No Pelourinho, a pobreza, tirando os gringos que circulam todos os dias na região, é óbvia. A quantidade de pedintes nas ruas, principalmente em épocas de temporadas, é alarmante. Aliás, todos os nativos falam inglês, desde pequenos, o necessário para arrumar algo com os estrangeiros. O entorno do Pelourinho é abandonado e tem cor, a pobreza é negra nas comunidades, que não são poucas. Logo ao lado das igrejas históricas, da Casa de Jorge Amado, do Elevador Lacerda, pontos que os turistas registram em suas máquinas fotográficas quase que mecanicamente, existem a rua da Independência, da Liberdade e a 28, por exemplo, lugares onde funciona o tráfico varejista de drogas. O crack está devastando gerações, na rua, à luz do dia. Um flanelinha, viciado na droga, disse que à noite as vielas nos arredores ficam lotadas.

Hamilton Borges, membro da “Campanha Reaja ou será morto!”, grupo que luta contra o genocídio da população jovem, pobre e negra, em Salvador, mora na região e afirma que só existe tráfico ali graças à polícia local. Volta e meia, agentes da polícia civil aparecem, mas os guardas que permanecem no dia a dia são, no mínimo, omissos ou coniventes com a venda das drogas. Na Bahia, do ano passado para cá, foram mortas cerca de 2.300 pessoas, disse. As cadeias estão lotadas, o destino desses meninos são a morte, a seqüela das violações ou a prisão, milhares deles.

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Ladeira numa das ruas principais no Pelourinho, onde existem diversas

casas de artesanato. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

 

A pessoa que me atendeu no Juizado de Menores, que fica numa das ruas do Centro Histórico, no Pelourinho, afirmou que eles “não conseguem chegar às causas, trabalhamos só na conseqüência”, em referência às ocorrências que atende. Em geral são jovens que moram no bairro, o furto é a principal infração, muitas vezes para comprar drogas. A prostituição infantil também é problemática na região, em função da procura dos gringos. O agente disse que faz o papel de pai no juizado, pois muitos são bem jovens e vêm de famílias desestabilizadas ou tentam trabalhar em empregos humildes e não conseguem dinheiro suficiente para os seus desejos: o desemprego e o subemprego não são novidades.

Há um projeto de revitalização do Centro Histórico que está em andamento desde o governo de Antônio Carlos Magalhães, na década de 90. No processo, muitas pessoas foram retiradas de seus cortiços, em favor da especulação imobiliária no Pelourinho, local de atração turística. Jocelia Fonseca, coordenadora do Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB) naquela área, afirmou que o Centro Histórico “realmente precisava de uma reforma, mas deram uma pequena quantia a uns, mas outros esperaram moradia e não tiveram”.

“A gente ocupou considerando que nós também somos patrimônio, as pessoas fazem cultura na rua”, referiu-se a algumas ocupações que ocorreram em casas abandonadas e à cultura como a capoeira, pintura, música e artesanato, espalhados pelo Pelourinho. “Onde não interessa a eles fica abandonado”, complementou, denunciando que fora das ruas principais o que não está à vista ficou esquecido. De fato, a situação é crítica fora dos cartões postais.

No que se refere à cultura, G. Boli, artista que morava no Rio de Janeiro e hoje vive de sua arte no Pelourinho, criticou a falta de incentivo. Seu atelier é a rua, sua inspiração se dá no dia a dia ao retratar baianas, a capoeira, as vielas, etc., todas as pinturas diferentes umas das outras. Com a abertura de várias lojas, comentou, fica difícil concorrer com o preço, já que as obras são feitas em série. No seu caso, tudo é realizado na pechincha, para a subsistência.

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Sede da Associação Cultural Filhos de Gandhi, no Centro Histórico do Pelourinho.

Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

A Bahia é também conhecida pelos seus orixás, sua cultura afro-religiosa. No Pelourinho há a Associação Cultural Filhos de Gandhi, longe das raízes da região, mais para turista, mas também diz respeito ao plano espiritual local. “Tio Souza”, diretor há 26 anos, disse ao Fazendo Media que “o pelourinho tem seu lado de espiritualidade com muito fundamento” e “é muito importante que as pessoas busquem a religiosidade da Bahia, mas é preciso que elas venham abertas para conhecer as falanges e ao se identificarem com alguma estejam abertas para entrar em sintonia”.

Souza também comentou sobre o processo de revitalização na década de 90, “um período de transformação e adaptação”, para ele. “Era interessante que tinha musicalidade, iguarias, alimentação e segurança”, lembrou, dando a entender que hoje as ruas estão mais perigosas, fruto do processo social. A imagem que nos vendem da Bahia de todos os Santos, que representou um papel fundamental na formação do nosso país, fortemente relacionada ao que há de pior nesse contexto, a escravidão, é sistematicamente produzida para inglês ver. Isso quando é mostrada, porque a omissão da mídia sobre Salvador, assim como as regiões fora do eixo Rio-São Paulo de um modo geral, é descarada.

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